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[Crónica] Tragam a Rússia de volta!

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Não sei se estiveram atentos às coisas que nos foram dizendo os organizadores da Eurovisão durante a edição deste ano, mas resume-se tudo numa frase: a Eurovisão não é um concurso político.

Temos reparado nisso ao longo dos anos. Não consigo, assim de repente, lembrar-me de nenhuma música com conteúdo político que tenha pisado o palco eurovisivo. Quando os Homens da Luta, em 2011, falavam do povo andar a gritar nas ruas, referiam-se aos bons tempos em que o Benfica era campeão nacional e o pessoal ia para o Marquês de Pombal festejar. Quando os lituanos de 2010 cantaram "No sir, we're not equal, no, though we're both from the EU" devem ter-se enganado, porque não eram totalmente fluentes em inglês. Quando os Zdob și Zdub voltaram ao concurso em 2022, a música não tinha nada a ver com a união entre Roménia e Moldávia. Podia estar nisto o dia todo. A única música política dos últimos anos era a da Geórgia em 2009 e, como isto não é um festival político, acabou desqualificada.

Se pensarem nas pessoas que vos rodeiam, não há muitas às quais possam dizer "olha, sempre que vejo qualquer coisa sobre isto, lembro-me de ti", mas eu sou uma dessas pessoas (e vocês também devem ser, se estão a ler coisas num site sobre a Eurovisão). Qualquer pessoa que me conheça minimamente há de lembrar-se de mim como "aquela que vê a Eurovisão". Não é necessariamente uma caraterística digna de aplausos, mas é o que temos.

O problema é que eu já não quero ser "aquela que vê a Eurovisão", mas não consigo não a ver. Este ano foi peculiar. Percebi que houve muita gente a "boicotar" o concurso não fazendo conteúdo sobre o mesmo. É engraçado que o boicote seja ficar calado, quando a única pessoa que conseguiu realmente fazer algo relevante pelo concurso nos últimos anos - o Joost - foi precisamente falando. 

Eu vou condenar sempre a maneira como se está a lidar com a situação de Israel, mas isso não vai invalidar que eu veja o concurso para poder dizer mal dele (coisa que, de resto, já fazia antes). E eu não estou mais certa ou mais errada que ninguém, cada um faz o que quer, mas não me venham com moralismos de "não devias ver", "não devias fazer conteúdo", "não devias votar". Certo, mas as finais nacionais já posso ver e comentar, como se não compactuassem com a Eurovisão, é isso? 

Mas indo ao encontro do título deste texto, eu quero que a Rússia volte ao concurso. E quero-o por vários motivos:

  1. Isto não é, como já disse no início, um concurso político, portanto, não há qualquer base para a Rússia ter sido expulsa e para não poder voltar;
  2. O mal do televoto divide-se e as duas nações invasoras anulam-se (ou acabam em 1.º e 2.º lugares, é-me igual);
  3. Os jurados de 2026 da Ucrânia merecem-no depois de darem 10 pontos a Israel;
Além disto, há que dar a mão à palmatória e admitir que a Rússia sempre teve grandes músicas e stagings. Nunca fui particularmente fã, mas sei que é preciso investimento para conseguir levar grandes nomes da música nacional àquele palco e, além da Rússia (e da Itália, por outros motivos), muito poucos países o faziam.

Se querem mais participantes no concurso para colmatar as saídas de Espanha, Países Baixos, Islândia, Irlanda e Eslovénia, tragam a Rússia de volta e, aproveitando a boleia, a Bielorrússia, que sempre nos deu as melhores pérolas nas audições da final nacional. 

Há também outro ponto em que muitos preferem não tocar, mas que é uma realidade: o televoto ucraniano. Eles não têm culpa, mas a verdade é que a Ucrânia, mande o que mandar (veja-se o ano passado), consegue sempre um top 10, muito impulsionado pelo televoto. Como é que isto se ultrapassa? Não sei, mas também não sou eu que tenho de arranjar soluções.

Querer desassociar a música (sendo que a metade do que se ouve na Eurovisão não o chega bem a ser) ou qualquer forma de arte da política é um erro. A Eurovisão foi criada num contexto político europeu péssimo e é assim que está 70 anos depois. Tudo na nossa vida é política, mas a EBU parece não querer ver isso.

A Eurovisão é tão pouco política que a Roménia e a Moldávia entraram numa guerra que acabou no despedimento do diretor da emissora moldava por causa de 3 pontos (e bem, que a Roménia merecia os 12 da Moldávia e dos outros países todos). Reza a lenda que a Hungria pode regressar ao concurso em 2027, decisão que não terá nada a ver com o facto de terem mudado de governo em abril.

Este ano aconteceu o que tinha acontecido há 10 anos: uma das músicas que eu mais odiava ganhou o concurso. Há 10 anos fiquei pior que estragada. Este ano, sabem como é que fiquei? Não quis saber. Podia ser sinal de crescimento emocional, mas é apenas sinal de desinteresse profundo num concurso que foi outrora uma fonte de alegria e vício. Agora, todos os anos quero que acabe e que haja uma vitória israelita para ver como é que a EBU lida com isso. Ainda não foi em 2026, que seja para o ano.

E podem achar que estou a mentir, que não quero realmente que Israel ganhe porque isso pode ditar o fim da Eurovisão, mas a Eurovisão, pelo menos aquela de que éramos fãs, não acabou já há dois anos? Eu não quero a Eurovisão assim. Eu quero a Eurovisão das conferências de imprensa em que podemos conhecer os artistas que cantam as nossas músicas preferidas durante 20 ou 30 minutos e não a Eurovisão dos conteúdos rápidos e supérfluos. Quero a Eurovisão em que se pode falar, em que artistas, imprensa e público não estão condicionados. Quero a Eurovisão em que posso ficar chateada porque os meus favoritos não ganharam, em vez daquela em que fico aliviada porque uma música de que não gosto derrotou o mal maior. Acima de tudo, quero a Eurovisão que foi criada para unir a Europa.

Este Festival da Canção (já) não funciona!

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Eu vejo o Festival da Canção há muitos anos e sinto que precisamos de olhar para ele mais a sério. O modelo de Festival que a RTP idealizou em 2017 e que nos trouxe a primeira vitória na Eurovisão e uma série de qualificações consecutivas que nenhum de nós esperava já não funciona. Não é de agora, mas creio que este ano se nota (ainda) mais.

Um modelo que deixou de funcionar há anos

Convidar compositores de renome para escreverem músicas para o Festival foi uma boa ideia, até que se esgotaram esses e a RTP teve de ir cavar bem fundo para encontrar quem aceitasse participar no concurso. Neste momento, quando são anunciados os compositores, ninguém conhece nenhum nome. Juntar a isso mais três métodos diferentes de seleção parece-me excessivo, sobretudo quando temos 600 pessoas que enviaram músicas de livre vontade.

O problema da livre submissão

Falemos da livre submissão: o Festival funcionou com base na mesma durante muitos anos. Com muitas músicas más, é verdade, mas não podemos negar que foi também de lá que saíram excelentes representações (2008, logo à cabeça) e outras tantas que não chegaram a sê-las. Há sempre a questão de se as músicas escolhidas pela RTP de entre as centenas de recebidas são realmente as melhores, mas este ano posso dizer-vos com toda a certeza que não eram. Mesmo sem ouvir nenhuma, consigo afirmar que havia melhor que pelo menos três das que chegaram às semifinais (e que, curiosamente, ficaram todas para trás). 

Qual será, então, o critério de escolha destas músicas? Quem são os jurados que as escolhem? E quantos são? Com chegam a acordo? Como é que ouvem uma "O-pi-ni.ão" e acham "sim, senhor, grande som, vamos meter nas finalistas"? Tantas questões não respondidas e tanta falha depois de, nos passados anos, termos visto músicas tão boas a sair deste método de seleção.

Júri regional ou regionalista?

Depois há, claro, o problema das votações. A conversão de pontos para 1 a 12 é ridícula e, apesar de isso só ter sido um problema real em 2025, quando a vencedora do televoto ficou completamente excluída de poder sequer lutar pela vitória geral depois de o júri a ter colocado num lugar deplorável, continua a não fazer jus àquilo que é a votação do público. Eu quero saber se os Bandidos do Cante tiveram uma vitória esmagadora, quero saber se aqueles dois míseros pontos para a vencedora do júri foram realmente mais que dois pontos aquando da conversão. Da maneira como as coisas estão, ficar em primeiro com 5 mil ou 5 chamadas a mais que o segundo vale a mesma coisa: dois pontos de diferença.

Mas o maior problema é o júri regional, e não é de agora. A cada ano que passa eu penso, antes do Festival, que não é possível sermos tão pequeninos a ponto de cada região atribuir os seus 12 pontos à pessoa que lá nasceu ou lá vive. Por este andar, eu ia ficar deprimida para o resto da vida se fosse ao Festival da Canção e o júri do Centro não me desse os 12 pontos, mesmo que eu tivesse tido uma prestação miserável. 

Não é normal eu saber assim que os artistas são anunciados que o Alentejo vai dar 12 pontos aos Bandidos do Cante. E, neste caso, ainda dou o desconto, porque ficam no 2.º lugar do júri, mas como é que se explica que o júri do Algarve dê 12 ao Sandrino, que não ficou no top 3 de mais nenhum júri? Como é que a Madeira, que não tendo ninguém a concurso, decide que os seus 12 devem ir para a banda escolhida pelos madeirenses vencedores do ano passado? Não quero tirar mérito a ninguém (até porque tanto o Sandrino como os Nunca Mates o Mandarim eram dos meus preferidos), mas se é para isto, mais vale nem selecionarem júri e atribuírem logo os pontos previamente consoante a distância ao quilómetro do local de nascimento ou residência de cada concorrente. Isto nem pode ser bom para os artistas, que sabem que aqueles 12 pontos não são reais, que percebem que aquelas três pessoas não gostaram verdadeiramente da sua música. 

Como é que isto se resolve? A indústria musical portuguesa é demasiado pequena e toda a gente se conhece (ninguém me tira da cabeça que o vencedor do júri só o foi porque toda a gente conhecia a compositora que ali estava ao lado), portanto, apesar de não ser a maior fã da solução, um júri internacional resolvia este problema. Em edições com concorrentes do Algarve não podíamos incluir um júri do Reino Unido, mas, tirando isso, acho que as questões regionais estavam salvaguardadas.

A hipocrisia do boicote

Escusado será também dizer que este ano havia um grande elefante na sala: a Eurovisão era tema tabu. Eu não condeno os Bandidos do Cante por aceitarem ir à Eurovisão. Se a RTP aceitou participar, alguém teria de ir e mais vale que sejam os vencedores do concurso. Isto criou, logo à partida, um desinteresse tremendo pelo Festival. As músicas tiveram pouquíssimas visualizações no youtube, não entraram em nenhum top viral e as próprias atuações das semifinais foram pouco vistas. Não culpo quem trabalha no Festival, porque creio que a opinião da maioria dessas pessoas será contrária à da direção da RTP, mas houve um desleixo tremendo na divulgação este ano.

Mas falemos do boicote dos artistas. Os artistas aceitaram o convite (ou propuseram-se) da RTP para participar num programa de televisão que serve para escolher o representante do país na Eurovisão. O Festival da Canção nunca foi nem nunca será outra coisa por muito que o tentem reformular. A RTP quer um programa que mostre a música nacional, mas isso é um Sanremo. O Sanremo é um festival mais antigo que a própria Eurovisão e que serve para mostrar nova música dos maiores nomes da música nacional. A Eurovisão é uma consequência. Em Portugal acontece precisamente o inverso e, para haver uma aproximação, muita coisa precisa de mudar, a começar pela qualidade musical. 

Um artista que aceita participar no FC, aceita participar num concurso ligado à Eurovisão. Pouco é o benefício de participar no concurso. Mesmo quem acaba por vencer o FC e ir ao ESC tem pouco retorno, quanto mais quem não consegue isso ou fica até na semifinal. Quantos concorrentes que não venceram o FC é que ficaram famosos nos últimos anos? Eu respondo-vos: nenhum. Portanto, aceitar concorrer para mostrar a sua música não me parece um motivo muito válido, sobretudo num ano de tão pouco interesse no Festival.

Ainda no ano civil passado, a EBU propôs a todas as emissoras uma votação (feita de forma manhosa, é certo) em que se definia a possibilidade de poder expulsar Israel do concurso. Houve emissoras que quiseram fazê-lo, mas a RTP não foi uma delas. A RTP apoiou a continuação de Israel no concurso. Boicotar a Eurovisão, mas não boicotar quem votou a favor de Israel parece-me de uma hipocrisia tremenda. Além disso, lembrem-se que a Eurovisão é vista por milhões de pessoas, é uma plataforma imensa para mostrar pontos de vista.

2024 foi um ano eurovisivo horrível, mas provou-nos que ir à Eurovisão e fazer perguntas é muito mais impactante do que boicotar qualquer final nacional vista por meia dúzia de pessoas. O Joost, depois de mandar uns bitaites (sim, porque não me venham com a história da agressão) foi proibido de participar, mas ficou marcado na história do concurso como a pessoa que começou esta guerra e que fez com que as conferências de imprensa deixassem de existir. Não será o caso, mas eu prefiro ter alguém que vá à Eurovisão e fale bem alto para todos os que a veem, do que alguém que participa no Festival da Canção promovido pelos ajudantes da EBU no apoio a Israel, mas depois se recusa a ir a um palco maior dizer o que pensa.

Não condeno os Bandidos do Cante por dizerem que se querem focar na música, quem me dera poder focar-me na música quando se fala de Eurovisão. E não os condeno porque eles certamente não terão noção da realidade do concurso. Condená-los-ei depois, quando lá chegarem, e continuarem a dizer a mesma coisa depois de perceberem realmente o que se passa. Porque basta conhecer um bocadinho a Eurovisão para saber que há muitos anos que aquilo não é um concurso de música. Se o fosse, porque é que a Rússia não pode participar?


Que futuro podemos ter?

É muito fácil dizer que as coisas estão mal, mas como podemos resolvê-las? Creio que o Festival da Canção está de tal maneira estereotipado que será difícil tirar-lhe a imagem mais negativa que possa ter junto da maioria das pessoas. O importante é não deixar que os poucos que ainda defendem o concurso não fiquem também com essa imagem.

O que se passou com a Henka no ano passado acabou com a pouca paciência que havia para a conversão de pontos. Não sei se será por quem organiza o Festival ser de letras, mas que posso arranjar-vos um excel com a fórmula da regra de três simples para calcularem os pontos. Do júri já falei e, sinceramente, não vejo outra solução que não a do júri internacional (que nunca colocaria a música n.º 2 em primeiro lugar, diga-se de passagem).

Além disso, é importante garantir que há músicas boas. Porque este ano, a sensação geral era de que as músicas não eram más, mas também não eram boas. A qualidade musical tem vindo a decair, mas vão se aproveitando uma ou duas músicas todos os anos que disfarçam. Este ano foi bastante óbvio que não havia nada realmente muito bom e também não houve esforço para fazer stagings (ou, se houve, foram más que doeram, exceção feita ao Dinis). 

Se os compositores que realmente querem para o Festival disseram que não, não aceitem as vossas 2.ª ou 3.ª escolhas, virem-se para a livre submissão ou escolham mais miúdos das escolas, porque este ano correu bem.

O Festival da Canção nunca será mais do que uma seletiva para a Eurovisão e está tudo bem com isso. Nós só queremos poder escolher de entre boas músicas. Só queremos ter artistas com boas performances. Só queremos uma boa produção. Só queremos poder dizer a quem não viu "não sabes o que perdeste, foi excelente" em vez de "tu é que tiveste juízo". Infelizmente, este ano não tivemos nada disso.

Imagem: RTP

“Quem mais sente que o FC 2026 está frio e sem entusiasmo ponha o dedo no ar!”

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Com uma estratégia que pode até estar definida internamente, mas que cá fora pouco se sente, o Festival da Canção 2026 está prestes a arrancar — e a verdade é que quase ninguém parece ter dado conta! E digo-o como fã atento: não há ambiente. Não há expectativa no horizonte. E se quem acompanha o Festival ao detalhe sente esta frieza, dificilmente o público em geral estará mais entusiasmado. Não devia ser sinal de alarme? Ou se calhar, e este ano em específico, quer-se mesmo isto assim? Quem é como quem diz: no nevoeiro!

Para mim, há só uma pergunta que se impõe: que rumo está a ser traçado? Por que motivo, este ano, estamos assim? É notório que faltam informações básicas para criar antecipação. Não conhecemos alinhamentos completos. A ordem de atuações tarda. Sobre ensaios, silêncio. As redes sociais do FC têm estado discretas ao ponto de parecerem ausentes ou mesmo inexistentes (como é possível!). E quando a comunicação falha em criar narrativa, instala-se inevitavelmente a sensação de vazio...

Agora um preâmbulo: Não é a primeira vez que deixo críticas à forma como o Festival tem sido conduzido nos últimos anos. Não o faço só porque sim. Faço-o porque acredito no formato e porque me recuso a aceitar que questionar seja sinónimo de atacar. E sei que há mais gente a sentir o mesmo — ainda que nem todos tenham coragem de o verbalizar.

Em 2025, antes da Eurovisão, apontei reservas à vitória dos NAPA — não à banda, mas ao modelo de votação do FC que, na minha opinião, continua a precisar de revisão. Reconheci depois o percurso meritório que o grupo fez e continua a fazer. Isso mesmo faz parte, na minha ótica, de uma análise honesta: criticar quando se discorda, reconhecer quando há mérito.

Mas agora falamos de 2026. A primeira semifinal acontece já este sábado (21). E, ainda assim, não existe a sensação de que estamos à porta de um dos momentos centrais da temporada televisiva da RTP.

Num ano com mudanças relevantes — nova abordagem de produção, contexto diferente, um palco novo, Filomena e Vasco a conduzirem tudo... decisões que poderiam gerar conversa — o que temos é contenção. E contenção excessiva raramente gera entusiasmo.

“Quem mais sente que o FC 2026 está frio e sem qualquer entusiasmo ponha o dedo no ar!”

Pergunto, sem dramatismos, mas com frontalidade: Estamos mesmo a sentir o Festival? Quem está a ouvir as canções fora da bolha habitual? Onde está o debate, o buzz, a curiosidade?

O silêncio não é algo neutro. O silêncio, antes, comunica!

O que pode estar a motivar toda a contenção este ano — Portugal na Eurovisão

Há ainda o tema sensível da posição do canal público no ESC, e das declarações de vários dos participantes no Festival sobre o boicote, em caso de vitória. É um assunto mais que delicado, naturalmente. Mas ignorá-lo não o faz desaparecer. Se existe um elefante na sala, fingir que ele não está lá dificilmente será estratégia sustentável. Nem tão pouco sacrificar tudo o resto para se poupar do que possa aí vir...

Por outro lado, também nós, fãs, parecemos mais conformados. Talvez pela gratidão pelo investimento feito nos últimos anos no Festival. E esse reconhecimento é justo. O trabalho da equipa que tem feito “das tripas coração” merece ser valorizado.

Mas a gratidão não pode significar silêncio absoluto.

Este ano sente-se menos impacto fora da “bolha eurovisiva”. Menos números. Menos comentários. Menos discussão. E quando não há reação — nem positiva nem negativa — instala-se algo mais preocupante do que a crítica: a indiferença!

Ser fã não é bater palmas a tudo. Também não é declarar derrotas antecipadas. É ter capacidade crítica e exigir que uma competição que já provou ser relevante continue a ambicionar mais. E não custa assumir que isso não está a acontecer, ou, melhor — está a desaparecer.

“Não tem mal nenhum ser fã do Festival e conseguir ter a capacidade de escutar e dizer — não temos canções competitivas. Não compro as opiniões de quem consegue ir para a frente de um ecrã elogiar todas as canções — nem os próprios acreditam nisso”

Portugal pode perfeitamente voltar a alcançar uma final da Eurovisão. Isso não está em causa. O que está em causa é o caminho até lá. Porque o Festival deveria ser um momento de mobilização coletiva, de conversa entre os pares, de um entusiasmo visível — e não um evento que parece voltar a passar mais despercebido.

Não trago fórmulas mágicas. Trago, talvez assim o diga, uma certa inquietação. E acredito que não estou sozinho. Ou pelo menos assim o espero.

Porque, se há algo que permanece, é isto: os fãs continuam aqui. Continuam atentos. Continuam exigentes. E continuam a querer que o Festival cresça — ou, melhor: que não se acomode.

E é precisamente por isso que vale a pena falar. E sim: nós, os fãs, nunca vos abandonaremos, RTP!

Opinião de Pedro Damasceno Lopes (ESC 38N)

[Opinião] FC é 'montra da música nacional' mas deve continuar a escolher a melhor canção para o ESC

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Todos os anos se fala do mesmo. E todos os anos as teorias são diferentes, mudam de pessoa para pessoa, e até qualquer um pode ter perspetivas de pensamento que se aglutinam.

Eu sou (sempre) essa última hipótese, ou seja, a de concordar com as duas coisas. 

Com isto quero dizer o seguinte: também considero que o Festival RTP da Canção (FC) deva servir o propósito de mostrar ao país o que de melhor se faz a nível musical. Seja isso cumprido na sua totalidade, ou, na realidade, possa ficar longe de tal, como tanta gente o diz. 

É bom termos um Festival diverso, como tem vindo a acontecer nos últimos anos, com artistas e estilos de música diferentes que não ficam presos à vertente “concurso”, mas que conseguem a vertente “estou a ser ouvido na rádio, na TV, ou nas salas de estar de vários portugueses”. Isto seria, desde logo, uma vitória. A segunda vitória, depois da verdadeira vitória. Porque é esse o propósito primordial: vencer. Ganhar um certame. Porque é isto o FC – uma competição.

O jornal Público escreveu, recentemente, à base de uma entrevista com Gonçalo Madail, da RTP, e um dos principais responsáveis pelo FC, o seguinte:

Para que serve o Festival da Canção? O Festival da Canção, este ano na sua 59.ª edição, é o concurso da RTP que apura uma canção para representar Portugal no Festival Eurovisão da Canção, que este ano se realizará pela 69.ª vez”. Primeiro parágrafo do artigo sobre “O que vamos esperar este ano do Festival da Canção”. Explicações dadas.

Mas é aqui que se entra na difícil dicotomia. Nos dois lados de uma moeda que parecem não colar.

Ter uma canção de que gostamos, que assumimos que é boa, e que pode ser igualmente competitiva, acontece. Porém, às vezes, também é um acaso. Até porque, onde está, sequer, a definição de “canção competitiva”? Isto não é, na realidade, tão mais complexo e por vezes aleatório que não deveria ser posto a discussão?

iolanda no ESC 2024, na Suécia (Getty Images)

Ainda que longa, essa discussão pode e, acredito, deve existir. Porque é dessa construção de ideias que se pode querer almejar um certo crescimento – e o que seria de nós se tal não tivesse sido posto em causa de 2016 para 2017.

Num Festival de 2025 que só agora vai começar, quero apenas recordar alguns pontos que deveriam estar sempre em cima da mesa:

  • Equilíbrio entre representatividade musical e competitividade no FC: acontece, ou não acontece? Diria que sim, mas só se pode responder quando tivermos uma canção vencedora e escolhida para a Eurovisão; Mas não esquecer – Há músicas que funcionam bem no contexto nacional, mas que podem não ter o mesmo efeito no palco da Eurovisão. Que o FC considere sempre este fator, para evitar ser apenas uma celebração da música portuguesa, sem ambições reais de sucesso internacional.
  • O que soa bem numa versão estúdio pode não ter o impacto de uma performance ao vivo, e vice-versa: apesar de já conhecermos as músicas a concurso, não podemos esquecer que as atuações ao vivo podem mudar muita coisa. A interpretação, a presença em palco e a produção visual são elementos cruciais que podem transformar completamente a perceção de uma canção. E possa a RTP ajudar (ou não) neste ponto…
  • “Tem muitas visualizações e lidera o Spotify, por isso já ganhou”. Sim, ganhou juízo: Uma canção muito ouvida pode significar que despertou o interesse de mais pessoas, ou que essas pessoas a estão a escutar mais vezes por, realmente, gostarem do tema, e por o acharem uma boa proposta. O sucesso digital é um fator a considerar, mas não deve ser o único critério de seleção. O foco deve ser sempre a escolha da melhor proposta para alcançar um bom resultado internacional. E não preciso de explicitar sobre quem e/ou qual o tema a que refiro, por exemplo.
  • As casas de apostas do ESC não interessam quando estamos nos últimos lugares, mas agora que estamos tão bem colocados já devem ser tidas em consideração: ponto fatídico, e nem precisaria de dizer mais nada. Mas acrescento – ao contrário do que geralmente acontece, Portugal tem estado realmente bem cotado, o que indica que há potencial competitivo na edição atual. Ignorar essas previsões pode ser um erro, pois tal reflete tendências e expectativas de quem acompanha a Eurovisão de forma analítica.

Identidade gráfica do FC 2025 (RTP)


Não há fórmulas mágicas e, acima de tudo, sabemos que no ESC pode sempre reinar a imprevisão. Mas também já temos, entre nós, fãs, algumas noções do que é que acontece aqui e lá fora. Por isso, que se possa viver o Festival da Canção como o próprio merece, já que só o temos uma vez, de ano a ano.

Mas que não seja esquecido – às vezes mais do que emocional, o racional também deve entrar nas equações. Não que sejam precisas calculadoras, apenas ouvidos apurados.

Que o FC 2025 possa continuar o caminho que Portugal tem trilhado no ESC nos últimos anos!


Imagens: João Vermelho/Getty Images/RTP

[Crónica] A ex-melhor semana do ano

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Eu cresci a ver a Eurovisão. É provável que mais gente tenha crescido a ver a Eurovisão, mas não tenha ficado fã. São as pessoas normais e que, consequentemente, não passaram os últimos dias agarradas ao twitter. Eu passei 4h30 e 6h30 no twitter, na sexta e sábado passados, respetivamente. Isto não contabiliza as horas que passei no site na sexta à tarde. Para vos dar um termo de comparação, eu costumo ter um tempo de ecrã médio de 2h por dia ou menos. 

O que se passou nos últimos dias, no mundo eurovisivo, foi vergonhoso e eu, que sou sempre a maior defensora junto daqueles que nada sabem sobre o concurso e só gostam de criticar, sou, como serão muitos de vós, a maior hater eurovisiva do momento. Ninguém odeia a Eurovisão neste momento mais do que os fãs da Eurovisão.

Eu não percebo nada de política. É, aliás, uma das muitas coisas sobre as quais não percebo nada. Pelo contrário, percebo até mais do que devia de Eurovisão e também percebo qualquer coisinha de noção. Assim sendo, o que vos proponho é uma análise apolítica do que aconteceu.

A EBU permitiu que Israel participasse quando muitos contestaram, comparando a situação com a da Rússia. Há, aqui, três pontos fundamentais em que as duas situações divergem:

  1. A Rússia está em guerra com outro país participante e Israel não;
  2. As sanções à Rússia foram imediatas e vieram de toda a parte, ao contrário de quaisquer sanções a Israel;
  3. A Rússia não detém uma marca patrocinadora do concurso, ao contrário de Israel.

Tendo tudo isto em conta, a decisão de manter Israel no concurso este ano foi, mais que política, monetária. Não que deva ser difícil arranjar um patrocinador para um evento que tem mais espetadores que o SuperBowl, mas era capaz de dar muito trabalho ao amigo Martin. 

Permitir a participação de Israel, ainda que se possa ter uma opinião pró-Palestina, seria, desde logo, prever problemas ao nível da segurança dos artistas, da imprensa e dos espetadores. As manifestações que aconteceram em Malmö provaram-no, mas, certamente, será difícil para o nosso amigo Martin pensar nisto quando tem um cérebro mais pequeno que o da minha gata.

De seguida, Israel apresentou uma música que a EBU achou ter teor político. "October Rain" era propaganda política bem disfarçada, mas "Hurricane" é propaganda política ainda mais bem disfarçada. No entanto, e sendo totalmente racional, se se baniu "October Rain" por ter teor político, como é que os Homens da Luta nos representaram em 2011? Como é que os Koza Mostra representaram a Grécia em 2013? Eram situações bastante mais óbvias e não houve sequer um aviso da EBU. Propaganda política era a Geórgia em 2009, esses épicos que queriam levar uma canção chamada "We don't wanna put in" a uma Eurovisão organizada pela Rússia. Só posso concluir que o objetivo da EBU era que Israel se recusasse a participar e, assim, ficasse visto como o mau da fita. Não aconteceu. 

Rapidamente nos apercebemos que a edição deste ano seria uma palhaçada maior que o que prevemos e, se deixarmos Israel de parte, há algumas mudanças a ter em conta:
  1. Os países automaticamente classificados para a final passaram a atuar na totalidade nas semifinais, o que provocou, certamente, muita confusão a quem não está familiarizado com as regras do concurso. Isto não teve, claro, nada a ver com o facto de a Suécia estar qualificada para a final;
  2. A votação começou logo no início do concurso na final. Isto não teve, claro, nada a ver com o facto de a Suécia atuar em 1.º lugar;
  3. O último recap foi feito na ordem inversa de atuação. Isto não teve, claro, nada a ver com o facto de a Suécia atuar em 1.º lugar;
  4. Mais metade dos papéis no sorteio das partes eram escolha da produção. Os produtores defenderam-se com o facto de haver muito poucas baladas. Nunca foi um problema até aqui, mas, de repente foi um problema. Isto também é capaz de ter a ver com a Suécia, mas depois de terem posto a Ucrânia a atuar depois deles, já duvido que tenha.
Na quinta-feira, durante a conferência de imprensa dos finalistas, tivemos Joost Klein, Marina Satti e Dons a pronunciarem-se, de certa forma, contra a participação de Israel. Antes disso, já Bambie Thug, Nemo e iolanda o tinham feito. Na sexta-feira, no dress rehearsal, foi quando tudo descambou e, a partir daí, nenhum de nós saiu das redes sociais.

Joost Klein ia acabar desqualificado porque tinha agredido um membro da delegação israelita. Não, afinal tinha agredido uma pessoa da produção do concurso. Mentira, na verdade tinha ameaçado verbalmente. Espera, foi um gesto que fez. Eu não sabia que era tão fácil mandarem-nos para casa. Se soubesse, há muito que tinha começado a fazer gestos ameaçadores aos meus colegas de trabalho. Creio que, se não me expressar contra Israel, é capaz de não ter o mesmo impacto, mas vou tentar e logo vos atualizo.

Portanto, uma pessoa que foi à Eurovisão "cantar" (está entre aspas porque ele canta muito pouco, verdade seja dita) sobre o quão bom é poder viver na União Europeia e sobre o quão mau é perder os pais o quanto deseja que se orgulhem dele, acaba desqualificado porque decidiu, vejam bem, falar! A liberdade de expressão, de facto, é algo que não podemos dar como garantido.

"Ah, mas ele foi suspenso por um incidente com uma pessoa da produção", dizem-me as muitas pessoas com quem já desabafei sobre o assunto. Se eu pedisse constantemente a alguém para parar de me filmar e a pessoa continuasse, eu só não lhe espetava um estaladão na tromba porque tenho metro e meio e zero força. Fazer um gesto, qualquer que ele seja, não é, nem nunca foi, motivo para desqualificação, a menos que se tenham dito coisas que fazem dói dói ao Morrocanoil.

Por outro lado, foi permitido pela EBU que a delegação israelita (e, novamente, estou a abster-me de conexões políticas, até porque acredito que aquelas pessoas não representam o povo de Israel da mesma forma que quem votou no Chega não representa o povo português) incitasse ao ódio perante outras delegações. Foram publicados vídeos sem consentimento de outros, mensagens de ódio nas redes sociais e feitas denúncias por parte de vários artistas. O Martin ainda não deve ter conseguido ver esses e-mails, coitado. Lê-se, nas regras do concurso:

"They shall ensure that no contestant, delegation or country is discriminated and/or ridiculed in any manner."

Não sei o que entendem por discriminar ou ridicularizar. Creio que dizer que Bambie Thug não devia respirar ao pé deles talvez possa integrar estas categorias, mas também posso estar errada, porque o amigo Martin saberá, certamente, mais que eu.

Na frase que citei acima, o "they" refere-se aos canais de televisão dos países participantes (essencialmente, às delegações). Sendo assim, parece-me lógico que a EBU pode discriminar e ridicularizar os concorrentes. Não há nada contra isso nas regras e, portanto, estar a reclamar porque a atuação da iolanda foi censorada nas redes sociais por causa de umas unhas em que 99% das pessoas nem ia reparar se não fosse isto, parece-me excessivo. Também é excessivo reclamar por só ter sido feito o upload do vídeo para o youtube uma hora depois. Isso e, claro, terem sido colocadas fotos da semifinal na galeria de fotos do site relativas à final. Leiam as regras, RTP.

Dito isto, eu não quero saber quem é que ganhou. Fiquei feliz porque a França conseguiu um resultado muito melhor do que eu esperava no público, porque Itália voltou a ficar no top 10, porque nós ficámos melhor do que eu esperava e porque a Suíça ganhou. Podia substituir Suíça por qualquer outro de 23 países (a Finlândia não entra no lote, lamento) e a frase manter-se-ia.

Mas falando da vitória da Suíça, duas notas:
  1. Proibir fãs de entrarem com a bandeira não binária na arena e proibir, inclusive, Nemo de usar essa mesma bandeira na flag parade, mas depois aproveitarem-se disso para propaganda é dos golpes mais baixos que já vi;
  2. Ouvir José Carlos Malato, assumido não-binário, referir-se a Nemo e Bambie Thug repetidamente com os pronomes "ele" e "ela" fez-me uma confusão tremenda. O resto dos comentários também me fez confusão, na verdade. Eu não sou, de todo, grande conhecedora de pronomes, mas uma pessoa assumidamente não-binária não ter a mínima atenção a estas coisas parece-me grave.
Desde sábado que acordo e a primeira coisa que faço é ir à internet ver se o Martin Österdahl já se demitiu. Até agora, nada, mas, se até a vice-presidente da Comissão Europeia vai pedir explições à EBU sobre sábado, é capaz de estar para breve. 

No final, há apenas três músicas no top 50 Global do Spotify: o vencedor, o vencedor do público e uma música que não chegou a competir. Se os Países Baixos tivessem competido, provavelmente, o voto do público dilatar-se-ia mais e Israel acabaria por vencer a votação. Joost Klein foi sacrificado para a Eurovisão não acabar. Obrigada, Joost, os teus pais estariam orgulhosos e os fãs eurovisivos lembrar-se-ão de ti até terem Alzheimer.


Era suposto esta ser a melhor semana do ano, mas - e não querendo estar a ser demasiado dramática -, em vez disso, acabou por se tornar na pior!

[Crónica] Bitaites sobre o Festival da Canção 2024

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Há quem, no dia de hoje, escolha comentar sobre o futuro do país. Como não quero fugir à regra, reflito, também, sobre o futuro de Portugal. É possível que o futuro eurovisivo seja deveras menos relevante que o futuro político, mas é, ainda assim, um futuro.

Sempre foi complicado para mim imaginar um cenário onde Portugal não era humilhado na Eurovisão. Eu cresci com a Sofia Vitória, os 2B e as Non Stop a representarem-nos. Estou habituada a ver o meu país nos últimos lugares e a ser esquecido passados dois segundos do final da atuação, ou, pior, a ser lembrado pelos piores motivos (Homens da Luta, estou a olhar para vocês). Como tal, custa-me que, pelo quarto ano consecutivo, levemos uma boa música e, pior que isso, uma atuação digna. É estranho. Portugal tem vindo a perder a sua essência e eu não sei até que ponto não devemos voltar a apostar em lixo. Tínhamos ali os Perpétua, e fomos escolher a iolanda.

Lembro-me de a iolanda ir ao The Voice e ninguém ter virado a cadeira. Foi um erro, mas ainda bem que aconteceu. Não creio que ela tivesse encontrado este estilo tão próprio se alguém tivesse virado a cadeira naquela prova cega. Se nunca ouviram as outras músicas dela, façam-no, porque estão ao nível deste "Grito". Eu sempre gostei muito do timbre dela e, assim que vi que era uma das compositoras deste FC, fiquei logo convencida de que seria uma das minhas preferidas. Para bem dos meus pecados, era a favorita de quase toda a gente. A iolanda apresentou-nos não só uma música de alto nível, mas, sobretudo, uma atuação como nunca vimos no FC. Está tudo certo para o palco eurovisivo e, o que quer que aconteça, vamos muito bem representados.

Agora, falando do FC em si. Alguém tem de dizer à RTP (e esse alguém somos todos nós, todos os anos) que não se aguentam duas horas de enchimento de chouriços, por muito que sejamos fãs da coisa. Eu acabei de ver as músicas na final e meti uma série. Quando acabei o episódio (e era de uma hora), ainda tive de levar com medleys e mais tretas antes da votação. Não há paciência que aguente e o programa seria muito mais apelativo se durasse menos tempo. Poderão argumentar que eu aguento o Sanremo e são mais horas, só que o Sanremo sabe como encher chouriços e o Festival da Canção não sabe, apesar de ter muitos anos de experiência nisso.

As passagens e não passagens da primeira semifinal não me chocaram, foi tudo normal, tendo em conta as prestações, exceto, claro, os Perpétua. Na segunda semifinal já falamos de outra maneira. É que eu metia facilmente todos os que não passaram na final. Ok, não todos, porque acho que o Silk Nobre, a Rita Onofre e o Leo Middea foram justos finalistas. Mas expliquem-me, por favor, onde é que os No Maka ft. Ana Maria, com uma música básica e mal cantada, a Cristina Clara, com uma seca de música, e o Buba Espinho, com uma música que cheirava a mofo daqui a Espanha e nem no FC 2012 tinha lugar, foram melhores que o Huca (nem vou elaborar, senão, não saía daqui), a FILIPA (ok, mau staging, mas pelo menos sabe cantar), o João Couto (má música, sim, mas pelo menos preocupou-se em fazer uma atuação) ou a Maria João (vá, eu esta dispensava). Há coisas incompreensíveis e os resultados da 2.ª semifinal é uma dessas.

Falando em resultados, muito queridos os jurados do Alentejo a dar os 12 pontos ao Buba Espinho. Quem diria, não é? Mais óbvio só mesmo o Chipre a pontuar a Grécia. Se nem a nível nacional os jurados conseguem ser imparciais, como é que podemos esperar que o sejam na Eurovisão?

Se eu estou contente com os resultados? Claro, ganhou a minha preferida. Se acho, como algumas pessoas, que o júri devia ser abolido porque a vontade do povo não se cumpriu? Reparem que o povo, na sua grande maioria, é estúpido. Não sei se lembram que, em 2017, o povo não elegeu o Salvador Sobral. Claro que o júri devia ser imparcial, mas nós não vivemos num mundo perfeito.


Dito isto, é bom saber que, pelo menos numa das votações deste fim de semana, ganhou quem devia ter ganhado. Na outra, provou-se, como já disse, que o povo é, de facto, bastante estúpido, e talvez estúpido seja até um elogio para aquilo que o povo realmente é.

Fotos/Vídeos: RTP

[Crónica] Fazer omelete sem ovos e uma votação (nada) surpreendente

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Não sei se, entre a passada terça-feira e hoje, se lembraram de ir ao google pesquisar "como fazer omelete se ovos?". Eu não o fiz, mas tenho a certeza que, se o fizer, o primeiro resultado da pesquisa vai ser o vídeo da atuação da Mimicat na Eurovisão.

Estive a pensar seriamente neste assunto nos últimos dias e creio que o que aconteceu para a RTP ter gastado um total de 50 cêntimos na atuação é até bastante fácil de explicar, senão, vejamos. Havia um orçamento definido para os dez anos de participações, que compreendiam os anos entre 2021 e 2030. Sucede que, logo em 2021, enviámos os The Black Mamba e toda a gente dizia que não nos íamos qualificar. Como a RTP é uma espécie de criança que salta de um precipício depois de os amigos dizerem "não tens coragem", e quis provar a toda a gente que estava errada, gastou 90% do orçamento que tinha para dez anos logo no primeiro. Foi bem pensado. A lógica deve ter sido a de pensar que ninguém neste país vê a Eurovisão e, portanto, só aqueles fãs chatos que seguem a coisa é que vão reparar que nos anos seguintes não há orçamento para nada, mas esses fãs (tipo eu) reclamam com tudo, portanto, nada de novo.

Sucede que os The Black Mamba acabaram bem classificados (e bem), a Maro ficou bem classificada e, de repente, a Eurovisão até é líder de audiêcias em Portugal. A Mimicat era a favorita de meio mundo para ganhar o FC, ganhou-o e, logo depois, ouviu da RTP "repara, está giro e tal, mas nós não temos dinheiro. Tu até te safas como artista, por isso, vê lá se só o teu carisma chega para irmos à final". Chegou. Não se iludam. A Mimicat não foi à final pela música que, apesar de genial, não é, de todo, o aspeto mais valorizado no concurso. 

A Mimicat foi à final porque é uma artista fenomenal. Uma das melhores deste ano e, de longe, uma das melhores que alguma vez nos representou. O 2.º lugar na ordem de atuação matou todas as esperanças de uma boa classificação, mas o 23.º lugar não apaga tudo aquilo que a nossa representante fez. Entregou-se como nunca nenhum representante se entregou a esta missão de nos representar da melhor forma possível. Escrevi-o antes da Eurovisão e mantenho tudo o que disse.

Olhando para a edição deste ano, musicalmente falando, achei-a muito pobre. A nível de organização, foi uma agradável surpresa. Para um país que fica sempre nos últimos lugares, o Reino Unido mostrou bastante competência na organização de tudo. Entenderam o que nós queríamos, fizeram bons interval acts e escolheram excelentes apresentadores. Ponto alto do evento? Quando o spokesperson alemão pegou na sua caixa de biscoitos fazendo referência a Ted Lasso. Quem não vê a série está a perder muito.


O que eu mais gostei foi da revolta dos fãs da música finlandesa com a vitória sueca. "Ai, mas o júri devia ser abolido", "o público é que sabe". Amigos, toda a gente sabia que a Suécia ia ganhar há mais de dois meses. Só acreditava no contrário quem nunca tivesse visto a Eurovisão. Abolir o júri significaria termos a Polónia e a Croácia no top 10. Abolir o júri também significaria que, em 2015, teria ganhado a minha favorita, mas isso são outras conversas. Eu sou a favor do júri, apesar de achar que devia haver uma maior ponderação do voto do público (60%-40%, por exemplo). Claro que acho também que o júri tem de ser qualificado e, ao contrário do que fez a RTP, não podem ser pessoas aleatórias e meio surdas que eles encontraram na tarde de sexta-feira a passar pela Marechal Gomes da Costa e convidaram para ir avaliar as músicas.

Dito isto, a grande injustiça da noite foi a Alemanha, que tinha uma música boa, com um staging ótimo e uma excelente voz. Foi a melhor dos big 5, mas vocês não estão preparados para esta conversa. O Reino Unido mostrou range ao ir do melhor ao pior vocalista e do top 3 ao bottom 3. Atuação absolutamente horrível. Conseguiu estar vocalmente pior que a Blanka. Ri muito com o último lugar da Espanha do televoto. Não era merecido, mas eu adoro ver os eurofãs espanhóis no twitter a queixarem-se do lugar depois de acharem, ano após ano, que vão ganhar.

O momento alto da noite foi a grande surpresa das votações, ou seja, os quatro pontos da Grécia para o Chipre. Não se preocupem, eu fui verificar, e o televoto deu os 12 pontos, mas o júri só pode ter enlouquecido. Loucura ou não, obrigada, amigos gregos, pelos 10 pontos para Portugal. É bom saber que há um país com bom gosto no sul da Europa. 

Obrigada, gregos e, acima de tudo, e em nome de toda a equipa e de todos os eurofãs (tirando aqueles chatinhos), OBRIGADA, MIMICAT!

Foto/Vídeos: Eurovision

[Crónica] Era uma Mimicat todos os anos, se faz favor!

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Eu sou uma besta. Achei por bem começar este texto por aqui, para esclarecer muito do que se segue.

Permitam-me recuar ao momento em que sairam as músicas do Festival da Canção deste ano. Não faço ideia de qual foi a primeira que ouvi. Lembro-me, sim, de passar muitas à frente depois de poucos segundos. Não que as tenha achado más, mas não se destacavam. Uma das últimas que ouvi foi precisamente a da Mimicat. Porquê? Deixem-me explicar-vos.

Eu conhecia o nome da Mimicat, mas nunca tinha ouvido nada dela. Ela era um pouco como o sushi na minha vida há uns anos: sem nunca ter provado, dizia logo que não gostava. A diferença é que eu provei sushi e continuei a não gostar. Porque é que eu assumia que não ia gostar da música da Mimicat? Porque, tal como vos disse, sou uma besta. 

Apaixonei-me por "Ai coração" à primeira audição. Não esperava, mas aconteceu. Sempre adorei músicas dentro deste género, com muitas palavras ditas em pouco tempo e letras divertidas. Se a isso se juntar uma boa voz (que eu nunca tinha ouvido e não sabia se ia soar bem ao vivo), ainda melhor. Pensei de imediato que ela nunca conseguiria vencer o Festival da Canção. Não via as massas a gostar desta música, e as minhas preferidas nunca ganham. Qual não foi o meu espanto quando percebi que era a favorita de muitos dos meus colegas.

Quando vi a atuação da Mimicat na semifinal fiquei de boca aberta. Como assim ela canta que se farta e ainda sabe o que é um staging? São as pequenas coisas que distinguem os grandes artistas, mas são as grandes coisas que os fazem destacar-se, e, para mim, a Mimicat destacou-se como nunca ninguém o fez no Festival da Canção (sim, nem mesmo o Salvador).

Fui, então, fazer o que já devia ter feito há muito tempo: ouvir as outras músicas desta artista que tinha acabado de descobrir. Qual não é o meu espanto quando me deparo com um género musical que adoro. Se eu fosse gravar um álbum e tivesse capacidade vocal para tal, era aquele tipo de música que gravaria. Estou ciente do "se" usado na frase anterior e, ainda assim, escolhi escrevê-la.

Não é só porque gosto da voz e da música, mas sou a favor de termos uma Mimicat todos os anos a representar-nos. É certo que os nossos últimos representantes têm sido muito bons e nos têm feito esquecer os anos negros do Festival (saudades 2012), mas nunca tivemos ninguém assim. A felicidade com que a Mimicat está a encarar esta aventura dá gosto de ver. Nota-se o quão agradecida ela está por esta oportunidade, nota-se que está a dar tudo o que tem em cada oportunidade e, acima de tudo, nota-se o quanto vai lutar pelo melhor lugar possível em Liverpool. 

Depois de tantas vezes vermos artistas que queriam só ir lá fora mostrar a sua música e mostrar-se fiéis a si próprios, é bom ver alguém que quer mais que isso. É bom ver alguém que está presente nas festas, que faz promoção, que conhece as outras músicas a concurso, que está sempre de sorriso na cara.

Se vai ser o nosso melhor resultado de sempre? Não, isso é certo (porque ainda estamos longe de conseguir vencer novamente), mas a final, apesar de não ser certa aos olhos de muitos, é-o a meu ver, e, se tivesse de apostar, seria num top 10. Porquê tanta fé? Porque acredito na nossa representante e naquilo que possa estar a ser preparado para melhorar a atuação que já era muito boa (tendo em conta as limitações do estúdio da RTP).

Vencer o Festival da Canção marca, provavelmente, o início da era em que a Mimicat é conhecida pelo público em geral. Tenho pena que tenha demorado tanto tempo. Tenho pena que ela tenha tido de lutar tanto, quando é claramente um dos grandes talentos deste país. Tenho pena de ter passado tanto tempo sem conhecer a música dela. Felizmente, o Festival da Canção mudou para melhor. Ninguém a convidou, mas ela enviou a sua melhor música, lutou, arrasou e venceu merecidamente o concurso.

É um verdadeiro orgulho ter uma representante assim. Agora, resta-me esperar pelo dia 13 de maio (sim, estou a assumir a nossa qualificação) para ver qual o nosso lugar no top 10 e, depois disso, comprar bilhete para o primeiro concerto que a Mimicat der neste país que, com tão poucas pessoas, continua, mesmo assim, a não reconhecer os seus grandes talentos.

Foto: RTP/Vídeos: Mimicat Music

[Crónica] Finalmente, Itália! (E finalmente entendemos o significado de staging)

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Ah, a Itália, o melhor país atualmente no concurso, aquele que é incapaz de nos presentear com uma má música. Finalmente fez-se justiça. Chegou com seis anos de atraso, mas chegou. Os Måneskin não eram os meus favoritos (já lá vamos), mas eram o meu segundo lugar e quão bom é ver o meu país preferido vencer com uma música do meu género preferido. Se mereceram? A Itália merece sempre. Merecia o Mengoni, mereciam os Il Volo, merecia o Gabbani, mereciam o Ermal e o Fabrizio e merecia o Mahmood. Aceito como uma vitória de todos eles e de todos os meus votos distribuídos pelos italianos ao longos dos anos.

Como já tive o prazer de falar da organização do concurso, não vos vou maçar. Mas gostava sinceramente que voltássemos aos belos dias de sorteio da ordem de atuação porque é demasiado óbvio que há favorecimento de certas músicas.

Sabem quem é que sempre disse que Portugal ia à final? Deixem-se de coisas e não digam que foram vocês, porque ninguém o dizia. Eu própria disse aos The Black Mamba, no final da entrevista que fizemos com eles, que iam ficar na semifinal. Claro que engoli tudo isso depois de ver as imagens do ensaio, mas estou aqui para o admitir. Se eu quisesse dar numa de Cristina Ferreira, tinha muitos comentários de facebook por onde pegar para provar que ninguém dizia bem da nossa música. É datada? É. É em inglês? É. É a nossa segunda melhor classificação do século? É. Porquê? Porque finalmente Portugal soube aproveitar o palco e fez um staging digno. Há uma primeira vez para tudo. Primeiro ganhámos, agora temos staging. Qualquer diz fazemos um Festival da Canção que não dure uma eternidade. São pequenos passos para grandes conquistas. Parabéns, The Black Mamba. Por serem fiéis a vocês mesmos, por levarem uma música com qualidade e por reconhecerem que havia outras músicas com qualidade.

Por falar em músicas com qualidade, atente nos seguintes versos:

"Quando ela entra no club
Ela é so good, I just can't get enough
Ela passa, eu olho
Ela parte-me o pescoço
Que ela tem aquele corpo que eu digo
What the fuck and so what, so what, so what
Eu não tenho culpa
Que ela tenha aquele butt"

Confesso que foi difícil escolher os melhores versos e foi ainda mais difícil não vomitar enquanto lia isto, mas achei que seria estupidez da minha parte mandar bitaites sem conhecer o trabalho de quem mandou bitaites esquecendo-se que um belo dia decidiu lançar uma música assim. Notem que não coloquei música entre aspas apesar de ter muita vontade. Não o fiz porque aprendi com o tempo que há vários tipos de música e, por muito que consideremos uma música lixo, fica bem respeitar o trabalho dos outros. Mas o compositor desta obra-prima, e apologista de que a música portuguesa era a única real em competição, tem só 5 anos a mais do que eu e, portanto, não terá ainda maturidade suficiente para entender isto. Está provado, num estudo que acabei de inventar, que gente que faz músicas sobre fraturas no pescoço não desenvolve tão rapidamente a parte do cérebro que nos faz estar calados quando não temos nada de jeito para dizer. Podem pensar: "ai, mas que infantil responder a haters e dar-lhes tempo de antena", pois é, mas eu não sou como o Jendrik e, portanto, eu sinto ódio. E notem que a resposta é dirigida a uma pessoa porque foi a que mais me irritou, mas serve para todos os pseudo intelectuais da música que acham que a nossa música é superior a qualquer um do top 3.

A parte que mais me custou este ano foram os zero pontos. Não os da Alemanha que se pôs a jeito (nem os da Espanha porque confesso que me rio sempre) ou os dos Países Baixos, mas sim os do Reino Unido. Aliás, permitam-me corrigir-me a mim própria como se não tivesse um botão para apagar: os zero do James Newman. É que com os zero do Reino Unido eu lidei bem. Não merecem mais que isso pelo nível de esforço que colocaram naquele palco (que é equivalente aos pontos recebidos). Já o James Newman não merecia zero pontos. É certo que a música do ano passado era melhor e provavelmente mais memorável e mais adequada à voz dele. É certo que ele não esteve no seu melhor vocalmente. É certo que não tem a experiência de palco de muitos dos artistas em competição. Mas zero? Alguém que se mostrou tão entusiasmado por participar no concurso e claramente deu tudo de si (com uma música decente), não merecia. Felizmente teremos sempre o álcool para ajudar. Tudo bem, eu continuarei atenta ao seu percurso.

Olhando para o top 10, não há uma música má. Há músicas de vários géneros, várias línguas, cantadas por artistas muito diferentes. É um orgulho olhar para estas músicas e não ter vergonha de dizer que sou fã da Eurovisão. A Eurovisão que nos deu os Måneskin, a Barbara Pravi, o Gjon's Tears, o Dadi, os Go_A, os Blind Channel, a Destiny, os The Roop, a Manizha, a Stefania. E que, fora dos dez primeiros, nos deu também a Victoria, os Hooverphonic, o James Newman e tantos outros. Fica difícil dizer mal do concurso assim.

E a minha preferida? Nunca pensei dizer isto, mas era a França, como era a de muita gente. Eu sabia que "Voilà" ia ser a minha preferida ainda antes de a ouvir por ter o Igit como co-compositor. Não sabia que ia passar a seguir a Barbara e ouvir os seus trabalhos anteriores. "Voilà", além de ser uma obra de arte a nível musical, é-o também a nível poético. A letra, a música, a envolvência, a interpretação são de uma perfeição tremendas. A parte final da atuação é das melhores coisas que já vi naquele palco e, ainda assim, tão simples. Ainda bem que a Eurovisão existe. Ainda bem que a Barbara não desistiu da música. Ainda bem que não quis cantar as músicas que escreviam para ela para ser mais popular. Ainda bem que a europa reconheceu o talento. E agora, amigos franceses, é lidar!

Imagem/Vídeos: Eurovision

[Crónica] Esperámos dois anos. Ainda assim, ninguém nos preparou para o que aí vinha

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Este é um olhar que se pretende atento, mas não demasiadamente exaustivo. Depois de longas semanas de variados assuntos eurovisivos, é uma visão circunscrita apenas às mais de três horas e cinquenta minutos de espetáculo da grande final do Festival. Como se isso fosse por si só pouco, não é? Enfrentámos uma final que, teoricamente, esperávamos há demasiado tempo, mas que ainda assim teve a capacidade de nos atordoar com a quantidade de situações em que fomos testando a nossa capacidade de apneia. Pelo menos, senti assim!


Quando percebi que o Festival Eurovisão da Canção 2021 tinha terminado, recuei por uns momentos, e questionei: onde e como é que o tempo passou tão depressa. E nem tantas horas em frente à TV, durante a final do certame, me deslocou desse pensamento. Acho que é sempre um denominador comum a muita gente, e que ao fim ao cabo acontece todos os anos. 

Quero apenas recuperar alguns pontos mais positivos e outros menos engraçados da grande final do ESC 2021. Vou expô-los, mas não vou catalogá-los. Desde já, acho que vão conseguir compreender, pelo tom de escrita, quando menciono algo mais positivo ou, por outro lado, simpaticamente negativo. Simpaticamente, atenção. Tenho vindo a aprender que mesmo quando queremos criticar alguma coisa, temos de o fazer de forma mansa, para que os mais fervorosos comentaristas nem sequer consigam compreender bem o tom da situação. Caso não entendam se estou a elogiar ou a reclamar com alguma coisa, deixem que seja a vossa imaginação a decidi-lo.

1. Nikkie faz um tutorial sobre apresentação aos restantes companheiros
(Ou a vitória do digital sobre a televisão)

Para a edição de 2020 da Eurovisão, Nikkie de Jager, ou também conhecida pela alcunha de NikkieTutorials, foi introduzida como a online host do ano, quase como moderadora dos conteúdos exclusivos do digital, a serem produzidos com os participantes desse ano. Em verdade, foi a única coisa que ainda assim se conseguiu cumprir, mesmo que à distância. De um ano para o outro, a YouTuber saltou para o papel de apresentadora, e eu não tinha entendido como é que isso tinha sequer acontecido. Mas bastou-me ver os três espetáculos deste ano para compreender. E agora, Nikkie prepara um segundo canal de tutoriais, agora dedicado a "como ser bem disposto à frente de uma câmara". Ainda, a aparição de vários conteúdos digitais na pequena tela televisiva foi igualmente um bom momento para demonstrar que os dois universos têm mais pontos em comum do que a separá-los!

2. Running Orders que não nos impressionam
(Ou o regresso do sorteio a 100%)

Quando em 2013 se consolidou que a ordem de atuações da Eurovisão seria decidida pelos produtores do espetáculo, já sabíamos que chegaríamos a este ponto: reclamações a torto e a direito todos os anos, de forma consecutiva, com alegações de que há sempre uns protegidos, em detrimento de países que são constantemente pior tratados. Também sabemos que essa ordem de atuações (agora falo em específico da final) pode ir buscar razão de ser aos resultados que determinado país teve nas respetivas semifinais. Pode ainda advir de algum posicionamento tido nas casas de apostas, ou com base nas opiniões gerais sobre canção X ou Y. 

Ainda assim, o propósito de "garantir a dinâmica do espetáculo" é o ponto principal. Mas algo não terá batido muito certo este ano. Se fosse só este ano, estávamos nós bem. Mas talvez tenhamos reparado que poderá ter sido das vezes em que ficou mais confuso, acho eu! Mais que não seja quando pensamos na alocação desmedida entregue às posições 16. a 20., com todas as canções desses lugares a terminarem no TOP 10 da final (com exceção da Bulgária, que ainda assim ficou em 11.º lugar). Fala-se em dinâmica de espetáculo, mas são capazes de colocar géneros musicais próximos uns dos outros (até artistas que apresentam a mesma indumentária). Claro que aqui a organização não pode ser sempre culpabilizada, mas gostava que voltassem com o sorteio da posição, só para ver no que daria.

3. As canções da final do ESC 2021
(Ou um ano em que podíamos dizer que até gostávamos de tudo porque estávamos sedentos de competição)

Claro que não gostávamos de tudo. Ainda assim, também não apreciávamos só uma ou duas. Acho que posso assumir que estaríamos um bocadinho assim, e foi o que acabei por ir sentindo... A verdade é que conseguimos compreender que estávamos perante um ano em que a competição era forte, não só em termos de "mas quem é que vai ganhar isto?", mas também quando recuamos ao recap de 2020. Dois anos sem Eurovisão poderá ter ajudado, mas foi sem dúvida uma das finais do ESC mais fortes, com muita coisa em aberto, e muita música a guardar no telele.


4. A saga dos ex-vencedores em Interval Acts
(Ou o porquê de Måns Zelmerlöw não ter encontrado mais nada de jeito para fazer na sua vida)

Eu até gosto que a Eurovisão se lembre e recupere os melhores momentos de antigos vencedores desta competição. Mas, fazê-lo ano sim ano sim, e, para ajudar à festa, com os mesmos cromos repetidos, já começa a ficar difícil de tolerar. Não sei, dá sempre o ar que certas personagens estão à espera das duas semanas de maio para pegarem nas suas roupas mais estilosas, saírem de casa, e aparecerem aos olhos do público. Nos restantes 300 e tal dias do ano, é o voltar à toca. Como disse, são vencedores do ESC por alguma razão, e todos (quase todos) gostamos deles. Mas se ficamos presos ao passado, nunca mais encontramos o caminho rumo ao futuro.

4.2 Não é erro mas sim mais um ponto sobre Interval Acts
(Ou a Davina Michelle ter sido melhor que qualquer outro intervalo da final)

A grande final da Eurovisão é sempre intensa, com muito a acontecer. Como já disse, às vezes aproveito os intervalos para descansar os olhos da televisão (ou então para trabalhar para aqui, qual escrav... não, nada disso!). Enfim. No entanto, se houver algum momento que me chame de imediato à atenção, voltarei a olhar para a TV. Durante a final, acho que não aconteceu. Talvez tenha apreciado a presença e a forte entrega vocal de Glennis Grace, que já não sabia por onde andava, mas estando irrepreensível em palco, como recentemente nos habituou.

Ainda assim, foram momentos que souberam a pouco. Fez-se o que se pôde, podem alegar. Mas quando têm um interval act como o protagonizado pela cantora Davina Michelle, relegado para uma primeira semifinal do evento, penso como teria sido giro se o tivessem projetado novamente na final. Continuaria a fazer um brilharete! PS: chega de sketches em carros. Enough is enough


5. Painéis de jurados que continuam a não perceber a tarefa que devem desempenhar
(Ou a falta de vergonha na cara, a 'política', e os pontos para a Moldávia em três passos)

Este é sempre um ponto muito perigoso de se mencionar, e quase que até tenho medo de o fazer, mas é um apontamento necessário. Claro que não é dedicado a todos os grupos de jurados nacionais, já que felizmente ainda há quem saiba o papel que aqui ocupa. Agora, ainda assim. Continuar a colocar o véu da ignorância sobre certas votações de júri, que seguem um linha de assumir um rol tão falacioso, enganoso, comprado, feito e partilhado entre amigos, comparsas ou vizinhos, e de certa forma desacreditadas, vão continuar a retirar mérito a partes cruciais deste concurso.

Não vou estar a fazer um tintim-por-tintim sobre algumas das votações dos jurados nacionais de países A, B ou C, até porque tenho bem consciência de que sabem a quem me dirijo. São sempre os mesmos. Conhecemo-los de cor e salteado. Claro que o caso da Moldávia é o expoente máximo do ridículo este ano. E relembro, não falo aqui do televoto, que seria outra situação com pano para mangas. Ter jurados que consideram "Sugar" a melhor canção da competição de 2021 é uma frase absurda o suficiente, mas aconteceu. Gostos são gostos, mas há performances e prestações vocais a pesar. E qualquer leigo conseguiria perceber isso!

Mesmo assim, faço por dizer que das duas, uma: ou se mantém tudo como está, mas é introduzida uma distinção entre painéis que se comportam como profissionais, e os outros que claramente fogem a essa regra, ou a EBU que pense (novamente) em ter mão firme sobre os casos que se repetem de forma sucessiva. Tirando as exceções apresentadas, o cômputo geral não foi desastroso, e o TOP 10 do júri terá sido merecido (e não digo isto por Portugal ter ficado em sétimo lugar, apesar de também o merecer).

Resultados finais depois da votação dos jurados dos 39 países em competição

6. Um televoto que nos fez dizer "O QUÊ!?" mais do que quatro ou cinco vezes
(Ou a saga dos nul points e a vitória dos países engolidos pelo jury vote)

É aqui que eu vou fazer alusão ao título desta crónica. Esperámos dois anos pela Eurovisão. Todos estávamos a desejar que o momento acontecesse. Contámos os dias. Ainda assim, podiam ter avisado que a apresentação dos resultados da votação do público iria ser totalmente imprópria para pessoas mais sensíveis. Acho que foi imprópria para qualquer um, ponto. Claaaaaaro, não é novidade nenhuma, e eu quase fui pulseira amarela num hospital, depois do esquema da votação de 2017, mas isso porque estava ali Portugal, não é?

Ainda assim, este ano esteve de tal forma recheado de momentos surpreendentes, que sinto que nem depois de 10 repetições do vídeo da votação vou conseguir compreender tudo ao milímetro. Termos tido quatro países a zeros num televoto do público não é só histórico, como um pouco chocante, e até triste. No reverso da medalha, vermos a ascensão da Lituânia, da Finlândia e da Ucrânia também é de tirar o fôlego. E para não falar da batalha final dos últimos três titãs. Acho que esta parte em específico do Festival já devia ter sido nomeada para um Óscar ou outro qualquer prémio internacional. Querem melhor triller do que os resultados de um televoto??

7. O verdadeiro fair play entre artistas, delegações e a reação do público
(Ou como mandar a Europa para um certo sítio mantendo a educação e o respeito)

Há lá maior reação do que a do James Newman e a da delegação do Reino Unido? Juntando às atitudes do público presente na Rotterdam Ahoy, assim como dos restantes participantes da final? Isto perante a excentricidade de 0 pontos atribuídos. Falo do Reino Unido, porque foi a situação mais tensa da noite, mas ainda houve mais distribuições do estilo. No final, todos se apoiavam uns aos outros, a felicidade reinava em cada rosto (Destiny left the room), e o sabor de viver aquela noite sobrepôs-se. Um espírito louvável, e que merece as nossas exaltações!


8. Itália a vencer o certame
(Ou a dor de cabeça da EBU, que já deve ter discutido com os representantes da RAI)

Era esperado? Não era esperado? Estava em primeiro nas casas de apostas! Mas o júri ia desgraçar-lhes a vida! Aceções que fomos vendo ao longo da última semana. Ainda assim, mais de 300 pontos do televoto vieram para arrasar. E agora, só temos de esperar que a emissora italiana não decida converter estes pontos todos em horas de espetáculo, porque o pessoal trabalha cedo a uma segunda-feira, e mais de 3 dias de Festival e de arraial não dão lá muito jeito.

"Zitti E Buoni" nunca foi a minha favorita, mas a atuação dos Måneskin prendeu-me ao ecrã. Tinha outras favoritas, mas a canção venceu bem. Siga, e assunto encerrado. Pragmáticos, sempre.

9. O triunfo de um país menosprezado chamado Portugal
(Ou o manual sobre como cantar em inglês na Eurovisão e conseguir o 2.º melhor resultado do século XXI)

Ontem tivemos a publicação de uma primeira crónica que explicou, passo a passo, o sucesso português, e sim, sucesso, já que vínhamos de uma nomeação de "Portugal vai ficar nos últimos lugares". Acho que devíamos manter aquela receita para nós, certamente continuará a ser útil. Ainda assim, só tenho mais isto a mencionar: Ainda bem que o Tatanka não colocou um par de luvas brancas como espécie de adereço a complementar o estilo elegante e soberbo do smoking apresentado. Ia ficar péssimo. Ainda assim, as luvas brancas estavam lá. Estiveram sempre!...

Tatanka, vocalista dos The Black Mamba, na interpretação de "Love Is On My Side"

E foi este o meu momento pós-Eurovisão. Desde já, as minhas desculpas caso tenha roubado muito tempo. Desculpas também caso esta visão tenha tombado para um lado mais satírico e menos convencional, este último tão mais aprazível da minha pessoa. Senti que, depois de duas semanas de análises a ensaios do ESC 2021, precisava de descomprimir de alguma forma. Ainda assim, a minha honestidade manteve-se! E que a Eurovisão nunca se esgote nos nossos pensamentos!

Imagens: BLITZ/Eurovision.tv/ Vídeos: Eurovision.tv

[Crónica] Como passar de besta a bestial na Eurovisão - The Black Mamba tutorial

1 comentário

Os The Black Mamba e a sua canção "Love Is On My Side" foram dados como derrotados desde o momento em que venceram o Festival da Canção 2021. Muito poucos eram aqueles que apostariam na passagem da banda à final (eu inclusive) e, como sempre, as redes sociais foram inundadas de críticas à RTP: 
"Vergonha de ser representado por uma canção em inglês." 

"É com isto que vamos lá fora?!", 

"Nem 1 ponto vamos receber!"

Alguns dias após a Grande Final da Eurovisão, a narrativa é outra:

"Portugal devia ter ganho!"

"A Eurovisão é só música com esteroides! O nosso tema era a única canção a sério!"

"Fomos roubados pelo público!"

Analisando este contraste de opiniões, a questão que surge é simples: que raio se passou para "Love is On My Side" se tornar na música do século, de acordo com os críticos do Facebook?

Se acham que este fenómeno científico e inexplicável aconteceu apenas com Portugal, estão bastante enganados, ora vejam:

a) Eurovisão 2012 - Albânia (Rona Nishliu - "Suus")

 

b) Eurovisão 2014 - Holanda (The Common Linnets - "Calm After The Storm")

 

c) Eurovisão 2018 - Irlanda (Ryan O'Shaughnessy - "Together")

 


Todas estas canções passaram de terríveis, chatas e pouco eurovisivas a potenciais vencedoras do concurso. 




Mas o que é que "Love Is On My Side" tem em comum com estas e outras canções pouco apreciadas durante o período de tempo que antecede as semifinais da Eurovisão? 

The Black Mamba Tutorial: 5 passos para mudar a opinião dos críticos do Facebook?


1) Mandar uma canção que represente a antítese daquilo que o eurofã acha que a Eurovisão é.

Europa, este ponto é essencial! Se querem irritar um comentador de rede social e serem dados como perdedores em 5 segundos, é enviar uma canção que não seja nem pop nem balada. E se possível, ressuscitar sonoridades do passado para a canção ser logo carimbada com o selo de "DATADA!". Levar uma canção em inglês também é um fator imprescindível para irritar o comentador… se o doutor em "ciência de opinião" for português, claro!


2) Apresentar a canção no respetivo país com uma realização em televisão chata, para depois surpreender mais facilmente o público europeu.

Importantíssimo! Quanto mais baixas as expectativas relativas à atuação no palco da Eurovisão, melhor! É essencial que na final nacional haja imensos problemas de iluminação e  planos de câmara desleixados para que qualquer melhoria na Eurovisão seja logo de deixar o queixo cair. Para mais conselhos dentro desta área, contactem a RTP. 


3) Corrigir todos os problemas da atuação na final nacional e arrasar no palco da Eurovisão.

Obviamente que este ponto é uma consequência do ponto 2! Não vai uma RTP desleixar-se tanto numa final nacional para depois apresentar a mesma atuação na Eurovisão, não é? Portanto, no palco da Eurovisão é para arrasar: bom jogo de luzes, planos de câmara certeiros e projeções fantásticas.


4) Estar mal colocado nas casas da apostas antes do início dos ensaios da Eurovisão.

Muito importante! Toda a gente adora ver o renascer das cinzas. É preciso que o país esteja muito mal classificado nas casas de apostas, para que depois dos ensaios, após apresentar a melhor atuação da história da Eurovisão, subir por ali fora, criando o buzz necessário antes da semifinal!


5) Retratar na canção uma história comovente para emocionar a Europa.

Quanto mais trágica e dramática a história, melhor! A canção deverá ser sobre alguém ou um momento difícil da vida, para que no dia das semifinais os votos de coração partido abundem! Como fator adicional, mas não obrigatório, se a pessoa ou momento retratados na canção forem sobre o país anfitrião da Eurovisão, melhor!




The Black Mamba seguiram todos estes passos à risca e olhem só: um honroso 12.º lugar na final da Eurovisão, rasgando todas as teses minuciosas sobre o porquê de Portugal não ter nenhuma hipótese na edição de 2021. Vale a pena lembrar que todo este texto é sarcástico! Não vá Espanha querer aplicar este método para fugir ao centésimo bottom 5 consecutivo, visto que eles já devem estar por tudo!

Muitos parabéns aos The Black Mamba e à RTP, que fizeram um excelente trabalho em Roterdão! Vemo-nos para o ano!

Vídeos e Imagens: Eurovision Song Contest
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