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[Crónica] Um milhão de coisas a dizer sobre o Sanremo 2021

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Meus caros, têm dormido bem? Eu tenho, mas pouco. Dez horas e 26 músicas depois, o que me apraz dizer é que ainda não é este ano que a Itália ganha a Eurovisão. Há algumas boas músicas neste lote, mas confesso-me ligeiramente desiludida no geral. 

O Sanremo é, no entanto, um espetáculo maravilhoso. Se demora tempo a mais? Claro, mas esse tempo é tão bem ocupado. Os apresentadores são os melhores. Não há comparação possível. Espero que saibam falar inglês porque nós merecemos uma eurovisão apresentada pelo Amadeus e o Fiorello. Também espero que adotem o público feito de balões para a Eurovisão. 

Dito isto, se calhar vamos às músicas, certo? Sigamos a ordem da votação do júri revelada ontem para deixar o mais interessante para o fim e tentar captar a vossa atenção (é assim que se faz, não é?).

Aiello ficou no último lugar, possivelmente, por não saber cantar. Tinha visto um comentário sobre a música dele ser muito boa, mas ele ser uma pessoa péssima. Não posso opinar quanto à segunda parte, mas a primeira é certamente verdade. Uma pena ele ter-se esquecido que era importante saber cantar num concurso de música.

Do 25.º ao 21.º classificados não me lembro de uma única parte das músicas. Isto quererá dizer alguma coisa e não é nada de bom.

Madame ficou, injustamente, no 20.º lugar. A música é muito boa, mas suponho que, tal como eu, o júri não seja grande fã de autotune. "Bianca luce nera" é uma canção péssima, mas a atuação, com as máscaras, é, sem dúvida, memorável (pelos piores motivos, mas é). Os Coma Cose estiveram muito mal em palco. Ela estava mais desconfortável do que eu se fosse fazer uma colonoscopia. Colapesce e Dimartino foram, facilmente, dos piores e, ainda assim, conseguiram um 17.º lugar.

Em 16.º ficou Max Gazzè que certamente estará na mente de toda a gente pelo look à Leonardo DaVinci. Se o quero na Eurovisão? Secretamente, sim. É a joke entry que merecemos depois de andarmos a roubar a Itália anos a fio. 

Os Mansekin, uma banda muito famosa lá no sítio, ficaram apenas em 15.º. Pareceu-me propositado para lhes tirar quaisquer hipóteses de um top 3. Há tão pouco rock no Sanremo, que foi refrescante vê-los. A música é muito boa e eles são impecáveis em palco. Uma pena já estarem fora da corrida.

Seguem-se na classificação La Rappresentante Di Lista e Fulminacci. Lembro-me das músicas? Não, mas recordo-me o suficiente para saber que estão em lugares demasiado altos. 

Gaia, cujo grande êxito por terras italianas é cantado em português, ficou de fora do top 10 mesmo tendo uma música diferente e tendo estado muito bem em palco. Não entendo. Arisa continua a ir ao Sanremo, depois de já o ter ganhado, sabendo que não o vai voltar a ganhar. Já sabemos que quer muito ir à Eurovisão, mas não vai dar. Paciência. 

Em 10.º lugar ficou a minha música preferida do concurso, se tivermos em conta exatamente isso: a música. Francesco Renga tem anos disto e é um cantor muito competente. Sucede que, na passada terça-feira, assassinou por completo o seu tema. Ainda assim, é uma música com um instrumental estrondoso. Espero que lhe consiga fazer justiça sexta e sábado.

"Mai dire mai (La Locura)" foi inesperado e muito bom. É o melhor rap deste ano. Os Lo Stato Sociale voltaram, mas com uma música muito inferior à de 2018. O azar deles foi terem concorrido com "Una Vita En Vacanza" logo depois de o Gabbani ganhar. Esta música, apesar de muito boa e com uma atuação maravilhosa, fica aquém.

Francesca Michielin e Fedez eram os grandes favoritos à partida e serão, com toda a certeza, dos mais votados pelo público. Ela, à parte do cabelo, esteve muito bem. Ele foi o oposto. Para piorar a coisa, a música não é impactante. Não é má, mas também não é tudo o que esperávamos. 

Fasma, o 6.º classificado, traz uma música muito bem construída, mas também traz mais autotune que voz, o que tira um pouco o encanto da coisa e me faz não o colocar nos meus favoritos.

Entramos no top 5. Noemi, que me dá a sensação de participar sempre com a mesma música, foi tremendamente apoiada pelo júri. Duvido que o seja também pelo público e, assim sendo, não me parece ter hipóteses de vencer. Não sou grande fã da voz dela, sobretudo nas partes mais agudas, e a música também não me convence.

Malika Ayane com "Ti piaci così" só pode ter sido um erro. Não é possível que as 300 pessoas que fazem parte do júri se lembrassem sequer disto no final de 26 canções e 200 interval acts. Não é.

Irama é, para mim, o melhor representante para Itália na Eurovisão, mas não necessariamente o melhor vencedor do Sanremo tendo em conta o historial do concurso. Eu gosto muito do Irama e esta música é excelente. A única parte que não gosto (odeio mesmo) é a alteração de voz no refrão. Faz-me uma confusão tremenda. De todas as formas, ainda nem é certo que ele consiga competir no sábado. Ontem apresentaram o vídeo do ensaio geral, mas não me parece justo que façam o mesmo no sábado. O nervosismo pode trair uma pessoa e ele não pode ter essa vantagem em relação a todos os outros. Veremos o que vai ser decidido, mas a verdade é que, de acordo com as regras lançadas há bastante tempo, ele devia ter sido desqualificado. Esperemos que não aconteça, mas é uma possibilidade.

Sinto que a Annalisa vai ao Sanremo ano sim, ano não com a mesma música. Soam todas ao mesmo e ela continua a não transmitir nada nas suas atuações. É extremamente afinada e isso ninguém lhe tira, mas falta tudo o resto. Não sei como ficou em 2.º lugar, mas não acho que o vá manter. 

Chegamos ao vencedor (anunciado depois de ver a atuação): Ermal Meta. A música deste ano está muito abaixo de "Vietato Morire" e até de "Non Mi Avete Fato Niente". É, como ele lhe chamou, "uma música simples de amor". Fosse qualquer outro a interpretá-la e não me parece que tivesse ficado em primeiro lugar. Ermal Meta tem o dom da interpretação e da escrita das músicas de amor. Todas as palavras que ele diz são sentidas e levam-nos a sentir (music is feeling, já dizia o nosso amigo Salvador que o próprio Ermal chegou a citar). Foi por isso que ganhou a votação provisória e é por isso que é candidato à vitória final, ainda que a sua música não seja extraordinária. Escrevi, em 2018, depois da Eurovisão, que eu e o Ermal "partilhamos a mesma visão da música". Três anos depois, tudo se mantém. 

Então, e quem vai ganhar? É muito difícil prever. Se nos últimos anos era fácil saber quem ia ter mais votos do público, este ano é muito complicado. Tendo de arriscar, diria que o top 3 do público será Ermal Meta, Irama e Francesca Michielin & Fedez (não necessariamente por esta ordem. O júri parece-me que se manterá (até pela mesma ordem) e a imprensa poderá perfeitamente apostar na Annalisa. Acho que o top 3 geral será o top 3 do júri. Annalisa vence na imprensa, Ermal Meta vence no júri e o público é um incógnita. Diria que se dividirá entre Ermal Meta e Irama, que têm uma fanbase mais propícia ao voto.

Mas eu não sou a Maya e, portanto, poderá acontecer precisamente o oposto. Sábado (ou domingo, vá) já o saberemos, mas se me pedirem para escolher, tem de ser entre o Irama e o Ermal para eu voltar a votar na Itália.

Uma última nota para "Polvere da Sparo" de Gaudiano, que compete na categoria  Nueve Proposte e é uma música absolutamente maravilhosa com uma letra brilhante.

Imagem/Vídeos (que ficarão indisponíveis em poucos dias): RAI

[Especial] Albânia: quem irá representar o país no ESC 2021?

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A poucas horas de ser desvendada a primeira canção que irá ser ouvida no Festival Eurovisão da Canção (ESC) 2021, a Albânia prepara-se para emitir a final do tradicional Festivali i Këngës (Fik) 59, uma edição marcada pelas exigências da pandemia.

Nunca antes tinha assistido à final nacional albanesa sem a presença da popular orquestra. Essa remoção foi exigida pelos tempos correntes que nos têm atormentado desde o início de 2020. A orquestra é de facto um elemento essencial  para quem assiste ao espetáculo e que muda totalmente a experiência de quem o vê.

Na primeira semifinal, pudemos assistir às atuações dos participantes do FiK 59, acompanhadas pelas versões estúdio das respetivas canções. Por sua vez, na segunda semifinal, foram apresentadas versões acústicas dos temas, o que não foi suficiente para colmatar a falta da orquestra. 

Hoje (23.12.2020), realiza-se a grande final do festival, onde os 18 finalistas virão a palco. Apenas um vencerá e, com base nas semifinais e no que se tem lido, não será difícil de se prever os 3 grandes temas que disputarão a vitória. 

Eis os 3 concorrentes com mais possibilidades de representar a Albânia no ESC 2021:

3. Era Rusi - Zjarri im


Era Rusi foi a maior surpresa deste festival! A sua presença de palco, que nos remete para a prestação de Ruslana no ESC 2004, renovou a energia de um tema que já tinha imenso potencial na versão estúdio. Como é evidente, a atuação não tem os melhores planos de câmara, muito menos o melhor guarda roupa, ou não estivéssemos nós a falar da final nacional albanesa. No entanto, há aqui muito potencial para a Albânia se fazer representar por uma etnicidade muito característica e dançante. Tendo em conta o historial de vencedores do FiK, não acho que Era Rusi se sagre vencedora, mas nunca se sabe...

2. Inis Neziri - Pendesë


Inis Neziri é uma favorita à vitória desde o momento em que as canções a concurso foram reveladas. A atuação em palco foi muito simples e Inis, como já seria de esperar, soltou todo o seu poder vocal, numa balada muito bonita e elegante. Tendo em conta que Inis perdeu o festival em 2018 com uma canção superior, será difícil vê-la viajar até Roterdão em maio. No entanto, o FiK costuma estar cheio de surpresas na revelação dos resultados

1. Anxhela Peristeri - Karma


Anxhela é a concorrente que segue na frente da corrida em praticamente todos os aspetas, ora pela sua sua prestação vocal muito segura na semifinal, ora pelo historial de vencedores da final nacional, ora pela boa receção por parte dos fãs. Aposto as minhas fichas na vitória de "Karma", dando o país  continuidade à sue excelência no ESC, verificada nos últimos anos.

Vídeos: RTSH

[Crónica] Eesti Laul: Jüri Pootsmann e mais 23

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A Estónia já prepara a edição de 2021 da famosa competição que elege o representante do país para a Eurovisão – o Eesti Laul. Com alguns nomes de regresso, será que neste lote de 24 músicas está alguma capaz de dar a vitória ao país no Festival eurovisivo?

Mais um ano, mais 24 canções lançadas pela Eesti Rahvusringhääling (ERR), emissora da Estónia, para o Eesti Laul. Ou seja, mais um ano, mais 20 pérolas esquecíveis e algumas canções de jeito que talvez dêem à Estónia uma posição acima do 20.º lugar na Final da Eurovisão. Este ano, o país presenteou-nos (Feliz Natal, eurofãs, yay!) com canções que parecem ser quase todas do mesmo estilo... Parecem, mas não são. A verdade é que todos os anos é assim (pelo menos eu tenho essa ideia)... Parece tudo igual, mas bem lá no fundo até existem estilos e sonoridades diferentes e particulares. 

Ora, uma vez que este ano existem poucas finais nacionais para ver e analisar, tudo vai sobressair e ser alvo da mínima crítica. Como sou uma pessoa cuja arte do reclamanço e do maldizer correm no ADN, tive de vir para aqui mandar meia dúzia de postas de bacalhau (porque estamos no Natal e bacalhau é melhor que pescada).

Para despachar já um comentário mau: um dos nomes mais aguardados pelos fãs para a edição de 2021 do Eesti Laul era o de Uku Suviste, vencedor da edição passada com "What Love Is". Estão a ver quando vos dão uma segunda oportunidade e conseguem estragar tudo na mesma? Exato; foi o que fez Uku Suviste. Se na edição passada tentava explicar what love is com uma letra apresentada num instrumental enfadonho que, eventualmente, podia agradar ao mais comum dos mortais, este ano o lucky one traz uma letra parecida, mas com um instrumental mais animado para tentar não aborrecer tanto. Basicamente, é uma tentativa de update falhada; é como os livros do Pedro Chagas Freitas desde o Prometo Falhar Todos os Dias.


Falhanços à parte, como já referi, existem sonoridades diferentes nesta edição. "6", da Heleza, "Alabama Watchdog", do trio Alabama Watchdog, e "Free Again", do Egert Milder, são três propostas que me agradam e que contrastam entre si.

"6" tem um dos instrumentais mais modernos e alternativos do Eesti Laul 2021 e, portanto, não ver Heleza na Final da competição será um crime hediondo; já fazia falta ter aesthetic vibes estónias na corrida para a Eurovisão e estas são uma lufada de ar fresco no meio de tanto mofo. Por outro lado, com a música "Alabama Watchdog", os Alabama Watchdog entram na competição estónia para partir tudo (espero que não literalmente) com uma mistura de rock e eletrónica. "Free Again" entra neste lote para um contraste interessante, uma vez que difere bastante das músicas mencionadas por ser um estilo mais calmo e simplista; não obstante, qualquer semelhança com o Ed Sheeran é coincidência.


Para fazer despertar o pessoal dos anos 80 e 90, a emissora da Estónia selecionou para o Eesti Laul "Heaven's Not That Far Tonight", música das Suured tüdrukud. 'Mas porque é que é para despertar o pessoal dos anos 80 e 90?!', pensam vocês. Então, é óbvio: porque esta música é toda uma cena pop disco que se enquadra, na perfeição, naquelas festas dos loucos anos 80; para além disso, foi a única que a minha mãe conseguiu ouvir até ao fim. 

Atenção que não estou, com isto, a querer dizer que o tema das Suured tüdrukud é má. Não faz muito o meu estilo, é certo, mas tem tudo o que é preciso para avançar para a Final da competição. É mais uma prova que nesta edição a diversidade impera (um bocadinho...).


E o que é que não podia faltar numa final nacional?! Aquela pérola super top que todos fingem não gostar e que só ouvem no Youtube, "às escondidas", para não aparecer, no final do ano, no Spotify wrapped"Tartu" é a pérola desta seletiva.

"Tartu" é má. Não serve para vencer uma competição de música; serve apenas para a malta se divertir, enquanto ri e goza. A letra faz referência a diversas cidades da Estónia e às suas particularidades, todavia, dá a ideia que foi escrita em 5 minutos. Mas o melhor disto tudo é o videoclip: REDEL surgem numa espécie de túnel, daqueles que, quando aparecem em séries/filmes, fazem pensar que vai acontecer alguma cena atroz, e, no decorrer do vídeo, surgem com tochas como se fossem ultras de uma equipa de futebol, isto tudo enquanto dançam como um bêbado numa festa de aldeia. É surreal.

Claro que é impossível não ficar com "Tartu" na cabeça. Quando me deito para dormir, o meu cérebro tem isto tudo on repeat. Tem sido o principal motor das minhas insónias.


Apesar de algumas boas canções, só há uma que me despertou interesse logo nos primeiros segundos e que reúne todas as condições para representar a Estónia no Festival Eurovisão: "Magus melanhoolia". Este Eesti Laul é Jüri Pootsmann e mais 23.

"Magus melanhoolia" e "Play", canção que deu a vitória a Jüri no Eesti Laul 2016 e o levou até Estocolmo, são completamente opostas. "Play" era boa... Mas a Estónia acabou em último na seminal da Eurovisão e isso caiu bem aos fãs estónios. Com "Magus melanhoolia", uma canção bem próxima do seu estilo atual, Jüri vem para vencer a competição estónia e vingar o resultado de 2016 no certame eurovisivo.

A canção de Jüri destaca-se facilmente das restantes músicas a concurso, mas não só: destaca-se de todas as músicas que a Estónia já apresentou na Eurovisão; é algo diferente para o país. Moderna, sofisticada, arrojada (para o que estamos habituados a ouvir do Eesti Laul) e com uma letra digna de análise numa aula de português de 9.º ano, "Magus melanhoolia" só tem um defeito: ser apenas de 2:15 minutos.


Bem sei que o Jüri não é o único com experiência eurovisiva no Eesti Laul 2021. Tanja e Koit Toome também estão de regresso ao concurso, e podem ter a ideia de querer vingar os resultados obtidos no ESC em 2014 e em 2017, respetivamente. Mas, infelizmente para eles, sinto muito, não vai acontecer.

"We Could Have Been Beautiful", de Koit, não é uma má proposta, mas, contrariando muitos eurofãs, faz parte do meu lote de músicas esquecíveis. É tão esquecível que só escrevi isto porque me lembraram de tal. Este tema, muito possivelmente, dará a Koit uma presença na Final do Eesti Laul, contudo, se em 2017 estava perdido em Verona, em 2021 vai ficar perdido por Tallinn.

Por outro lado, Tanja vai pisar o palco do Eesti Laul com "Best Night Ever", uma música bem dançante, animada e que fica no ouvido. Realmente, podia ser a melhor noite de sempre para Tanja... Mas não será; e não será porque "Best Night Ever" não é suficientemente wow para ela erguer o troféu de vencedora do Eesti Laul pela segunda vez.

Deste modo, Tanja e Koit não me parecem com vontade de vencer o Eesti Laul e de fazer melhor na Eurovisão. Sendo assim, o único eurovisivo com caminho aberto para brilhar, tanto na Estónia como posteriormente (fingers crossed) em Roterdão, é mesmo o Jüri.


Resumindo, então, isto tudo em (apenas!) dois pontos simples: a edição de 2021 do Eesti Laul conta com heterogeneidade musical o quanto baste para não aborrecer os telespetadores e fãs, mas essa heterogeneidade musical não faz desta edição a melhor dos últimos anos; o regresso de três nomes eurovisivos e de Uku Suviste à competição estónia prometia, mas apenas Jüri Pootsmann convenceu.

A competição estónia continua e continuará a ser uma das finais nacionais que mais interesse me provoca. Seja pela qualidade simples da ERR, pelas apresentações, pelo estilo ou pelos novos artistas que todos os anos descubro. E esta edição traz algo diferente...


Enfim, que magus melanhoolia o Eesti Laul 2021 me trará.


Imagens: Eesti Laul; allstarz.ee; TV3 Uudised; JuriPootsmannVEVO; Koit Toome Official/Vídeos: Eesti Laul; JuriPootsmannVEVO

[Crónica] Quão mau é, na verdade, o filme sobre a Eurovisão?

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Na passada sexta-feira à noite, precisamente o dia em que o filme Eurovision: the story of Fire Saga, reunimo-nos (alguns membros atuais e antigos deste site) numa plataforma de streaming para ver o tão falado filme. Fizémo-lo porque muitos de nós iríamos provavelmente adormecer a vê-lo sozinhos.

Respondendo à pergunta que dá nome a esta crónica/análise/o que lhe queiram chamar: é bastante mau. No entanto, tendo em conta o que se esperava, até é bastante agradável. Não me parece que alguém fora da bolha eurovisiva o vá ver e pense "sim senhor, boas duas horas gastas a ver isto, isto é que é aproveitar a vida", mas para nós, que esperávamos ver o nosso programa de televisão preferido achincalhado, até nem foi mau de todo. Esta não é a análise mais interessante ao filme que vão ver, mas sigam-me nela ainda assim e, se ainda não viram o filme, não se importem porque o facto de não ser muito interessante faz com que spoilar alguém não seja assim tão grave.

Já toda a gente conhece o plot: Will Ferrell e Rachel McAdams são dois islandeses que formam o duo Fire Saga. Ela canta muito bem (também eu cantaria se a Molly Sandén cantasse por mim) e ele bastante mal. Porque é que ela faz duo com ele? Ninguém sabe. Ele tem um pai - o Pierce Brosnan - que parece ter a mesma idade que ele, mas os produtores ignoraram isso. Talvez na Islândia sejam muito precoces nisto de ter filhos. Ignorando tudo isto, se calhar a Rachel McAdams a nível da comédia ficava-se por aqui. Estragou um bocadinho a minha ideia dela no meu filme preferido de adolescência - o Red Eye.

Will Ferrell fica fascinado com o ESC quando vê os ABBA vencer em 1974 e sonha representar o seu país. Anos se passam e toda a gente sabe que as duas personagens principais estão apaixonadas um pelo outro, mas nenhum deles fala sobre isso. Anos disto. Os dois andam a tocar em bares (a tocar "Ja ja ding dong", que seria certamente top 5 no ESC se a Suécia enviasse a música).


Posto isto, eles lá conseguem chegar à final nacional islandesa (que eles designam por Icelandic Song Contest) e, no final, tudo corre mal e a Demi Lovato (que tem umas 3 falas no filme todo) ganha o concurso. Importante referir que a personagem dela se chama Katiana, um nome muito islandês. Até aqui o filme é sofrível.

É depois que aparece realmente a melhor parte humorística do filme. Todos os concorrentes morrem numa festa num barco porque o diretor financeiro da RUV não quer que a Islândia ganhe o ESC. Por mim o filme todo tinha este nível de estupidez. Sucede que os momentos de piada são bastante escassos, mas já lá vamos.

Os Fire Saga, únicos sobreviventes, chegam ao ESC e é aqui que começam todas as incoerências que só os fãs conseguem detetar. Certo, mais ninguém vai conseguir perceber que a Itália e a Espanha estarem na semifinal é estúpido, mas também mais ninguém vai ver o filme por isso podiam ter pensado nestes pormenores.

Já na semifinal em si, Graham Norton diz "afinal isto não é tão mau como parecia". Certo, Graham, "Double trouble" ia totalmente ficar no top 10 do ESC. Gostei especialmente do crescimento repentino da echarpe dela. Durante meia atuação acabava onde acabava o vestido, mas assim que ela chegou perto da roda de hamster, cresceu tanto que estragou a atuação toda.


Chocou-me a não passagem da Bielorrússia, mas tendo em conta o facto de nem aparecer na tabela, é capaz de ser normal. Achei um ultraje quando eram os melhores da semifinal. A Rússia parecia mais um NQ do Eurosong. Toda a gente sabe que o Sergey nunca iria com algo tão pouco elaborado. Talvez o Alexey Vorobyov fosse. A Suécia é tão beneficiada que até pode ter sete pessoas em palco. A Espanha nunca iria passar à final e a Itália ficar de fora. Era preciso uma catástrofe. E a entrega de pontos foi incrível. Não queria dizer que fazia um gráfico melhor no power point, mas fazia

Antes disto (vejam como esta análise está tão bem pensada e estruturada que até recorro, como fazia Camões, ao uso de analepses), Salvador Sobral aparece para dar um ar de sua graça. "Amar Pelos Dois" adequa-se exatamente em nada aos momentos que são mostrados aquando da passagem da música, mas ignoremos esse facto. Salvador é um artista de rua com ar de sem abrigo a tocar num piano mais caro que a minha casa. Porque é que ele aceitou entrar neste filme? Sabe-se lá.

Sabem o momento em que o diretor financeiro da RUV diz ao Will Ferrell que eles não podem ganhar porque a Islândia não tem dinheiro para sediar no ano seguinte? Imagino isso, mas com a RTP e a Vânia Fernandes em 2008.

Duas das melhores piadas do filme aparecem já mais para o final: a dos americanos a perguntarem se o ESC é como o The Voice (bem apanhado, Will, bem apanhado) e a de "não haver gays na Rússia".


Mas a minha parte preferida, porque adoro incongruências em filmes e séries, é o momento em que o russo diz "toda a gente odeia o Reino Unido, por isso, 0 pontos". Ora, eles estão na Escócia para a Eurovisão. A Escócia é no Reino Unido. Isto leva-nos a concluir que o Reino Unido ganhou no ano anterior. Tendo em conta o facto de todos odiarem o Reino Unido, parece-me improvável portanto ganhou quem? A Austrália? E o ESC é no Reino Unido, mas o Graham Norton é só comentador? Hmm...

Dito isto, tanto "Double Trouble" como "Husavik" seriam sérias candidatas a um excelente resultado na Eurovisão. A Molly Sandén é uma excelente cantora, mas podia ter ensinado à Rachel McAdams que, se fizer aquela nota mais aguda quase a engolir o microfone, é capaz de não dar bom resultado. Se é um filme que eu gostei de ver? Em última análise, sim. Se quero voltar a ver? Nem por isso.

Mas este filme não é só estupidez e piadas, este filme ensina-nos algo para a vida: se quiseres ser alguém, arranja uma equipa de relações públicas como a da Anna Odobescu.

[Crónica] Bitch she is Madonna... in Eurovision

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Já imaginaram o encerrar do desfile de canções na Grande Final da Eurovisão 2019 com "When you call my name it´s like a little prayer"? Era tudo o que a igreja católica desejava, principalmente se para o palco vierem crucifixos a arder. Drama, polémica e música são apenas alguns ingredientes que a Rainha da Pop poderia trazer ao concurso que também vive de drama, polémica e... de música de vez em quando. Preparem o tapete vermelho e a coroa de diamantes, porque Madonna poderá estar a chegar a Israel.

Ninguém acreditava que a Material Girl pisaria alguma vez o palco da Eurovisão. Mas o que é certo, é que tal poderá deixar de ser um sonho (ou um pesadelo para os haters) e tornar-se numa realidade. Milhares de notícias em todo o mundo especulam acerca da possível atuação de Madge na Grande Final da Eurovisão 2019 e isso seria tudo o que precisávamos para ser felizes sem sabermos. E porquê? Então porque...

Ela é "Erotica"

Quem não gosta de ver no palco da Eurovisão uma mulher que afirma sem medos a sua sensualidade e a sua sexualidade, derrubando qualquer machista que ainda esteja vivo? Madonna faz isto há dezenas de anos, não tendo medo de partilhar as suas fantasias com o mundo e muito menos de as mostrar em palco! Eleni foureira, Ani Lorak e MARUV (crying in ukrainian) são apenas alguns exemplos do amor que os eurofãs depositam em bombas de sensualidade. Bem, Madonna começou por cantar "Like a Virgin", mas não tardou muito para começar a gritar "Deeper and Deeper", porque tudo não passa de "Human Nature".


Ela é um "Hard Candy"

Eurovisão e Madonna não podem ser dissociados, pois ambos vivem de polémica. Todos nós adoramos aquele drama agressivo, com direito a vários episódios e capítulos certo? A polémica faz parte da carreira da Madonna, ora através das canções, ora através das suas atuações, ora com outros artistas. Elton Jonh, Cher e Lady Gaga são apenas algumas das rivalidades que marcaram a vida da cantora. Todos sabemos que a Rainha da Pop não veio para a indústria da música para contar "Bedtime Stories" aos seus colegas de trabalho...


Ela é um "Ray of Light"

Tanta luz que se vê sair do palco da Eurovisão que por vezes até cega! A Eurovisão também vive de cor e fogo de artifício. Madonna, por sua vez, é a rainha das atuações, proporcionando um espetáculo memorável, colorido e bem marcante! Quem não se lembra da histórica apresentação de "Hung Up" nos EMA´s 2005, realizados em Lisboa? 


Ela é "Celebration"

A Eurovisão é uma celebração da nossa cultura europeia, onde vários países se apresentam orgulhosamente no maior palco de música do mundo. Madonna tem milhares de motivos para celebrar, começando na sua carreira e terminando na sua conta bancária... "Bitch I´m Madonna".


Ela é uma "Masterpiece"

Eurovisão também pode ser sinónimo de qualidade e de apresentação de canções conceituais, com mensagem nas entrelinhas. Quantas vezes já "ouvimos" arte na Eurovisão? Agora imaginem "Frozen" ou "The Power of Goodbye" no palco do concurso... seria "Amazing"!


Ela tem uma canção chamada "Spanish Lessons"

... e isso poderia tirar Espanha do fundo do poço.


Esperemos que os membros da UER leiam esta crónica e que apontem estes parâmetros super válidos o coerentes para trazer Madonna ao palco da Eurovisão. Talvez tudo não passe de uma grande especulação, mas o que é certo é que o tão aguardado sucessor de "Rebel Heart" está para ser lançado e, como se não bastasse, com influências da nossa música portuguesa. Seria genial utilizar o certame como meio de promoção do seu próximo passo na carreira...

Então, mas esperam lá! Há um motivo que impede Madonna de participar na Eurovisão...

A canção dela tem "4 Minutes"

... e só pode ter 3!

Imagens: Papelpop; Madonna Online; CinePOP; About Music - WordPress.com; Wikipédia; Madonna Madworld

[Crónica] Quem é que vai dar o próximo top 10 à Itália?

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Permitam-me começar este texto com um pequeno aviso: é bastante possível que os parágrafos que se seguem estejam repletos de erros e frases com pouco sentido. A razão é simples: vi todas as quatro horas e meia da primeira noite de Sanremo.

Não sei se alguma vez tiveram o prazer de ver uma noite completa de Sanremo. Eu nunca o tinha feito porque não me odeio assim tanto. Esta terça-feira decidi que estava na hora de o fazer pela primeira vez. Ainda estou a recuperar dessa péssima decisão e a considerar se vale ou não a pena clicar no link da RAI este sábado antes da uma da manhã. Agora que já enchi dois parágrafos de nada, passemos ao que interessa.

Quem me conhece sabe que adoro as músicas italianas (na Eurovisão e no geral) e este ano não é excepção. A Itália tem uma coisa de que gosto muito que é fazer aquele pop capaz de agradar a todos mas sem sons artificiais e a orquestra do Sanremo é tudo o que sonho ter na Eurovisão. Claro que as 24 canções soam todas ao mesmo - violinos - e é impossível julgá-las apenas numa noite. É assim que se justificam as 5 noites de Sanremo que ninguém vê a não ser os loucos italianos que claramente tiram uma semana de férias para o fazer. 

Este ano o Sanremo está repleto de grandes nomes da música italiana e talvez se esperasse mais qualquer coisa. Não diria que existe uma música extraordinária mas há umas quantas bastante boas (a qualidade no geral é claramente superior à do ano passado). 

20 MÚSICAS QUE (PROVAVELMENTE) NÃO VÃO VENCER


Francesco Renga traz-nos a pior música que já ouvi dele. Desinteressante e nada memorável. Nino D'Angelo e Livio Cori, de quem nunca tinha ouvido falar, fizeram-me doer os tímpanos. Foram os piores da primeira noite. Nek vem com uma música ao seu jeito com um instrumental mais eletrónico com toques rock. É uma das minhas músicas preferidas. Destaque para o verso "Estou pronto para nunca mais estar pronto" - ah, a poesia!

"L'amore è una dittatura" tem um instrumental muito interessante e diferente de tudo aquilo que a Itália já enviou à Eurovisão. Falta-lhe qualquer coisa como uma voz menos irritante. Loredana Berté é, chamemos-lhe assim, uma figura peculiar. Não canta especialmente bem, mas traz uma música a fazer lembrar Emma Marrone de que gosto muito. Daniele Silvestre surpreendeu-me muito. Não sou de todo fã mas o instrumental da música conquistou-me. É uma pena não ir a lado nenhum. 

Federica Carta e Shade foram dizer um olá e já ninguém se lembra deles. É uma pena o desperdício do talento dela nesta música. Paola Turci não sabe cantar e acha que ter a mão no bolso durante uma atuação dá estilo. "Dov'è l'Italia" é uma música animadinha cantada pelo irmão perdido do Ermal Meta que claramente não ficou com o talento do irmão. 

"Per un milione" é o mais próximo que temos dos reggaetons foleiros de todas as semifinais. Patty Bravo foi lá dizer que ainda está viva ainda que não consiga cantar. Achille Lauro, seja ele quem for, foi cantar sobre Rolls Royce. Acho digno. Se o Gabbani pode cantar sobre macacos que dançam, este também pode cantar sobre carros. 


Reza a lenda que Arisa é a única do lote que faz questão de ir à Eurovisão (e a única em toda a Itália também). A música da Manuela Azevedo lá do sítio é bem engraçada e tem o melhor videoclip da vida. Tem tudo: ritmo, keychanges, uma boa voz. Só não tem hipóteses mas fica a intenção. 

Os Negrita tinham ficado em casa se era para trazerem isto. São uma banda capaz de bem melhor e trazem uma música que não acrescenta nada. Ghemon foi ao palco do Sanremo mostrar o casaco que comprou por 5€ nos saldos e que é 5 tamanhos acima do seu. Esqueceu-se de trazer uma música boa e uma voz. 

Einar é um dos vencedores do Sanremo Giovani e, portanto, podem imaginar os restantes concorrentes. "Solo una canzone" tem um nome perfeito uma vez que é apenas isso: só mais uma canção de que já ninguém se lembra. Anna Tatangelo canta bem mas não encanta. Traz uma música bem à Sanremo mas que não marca. 

Enrico Nigiotti apresenta-nos uma música onde grita vezes sem fim "Non dormirò" exprimindo assim o desespero de toda a gente que fica até às 2 da manhã a ver o Sanremo. Estou a gozar mas é das melhores letras a concurso. Mahmood, o outro vencedor do Sanremo Giovani de quem nunca tinha ouvido falar antes, vem com a música menos italiana de todo o festival. Pessoalmente odeio mas consigo entender o porquê de muita gente adorar.

QUEM PODE VENCER?


Comecemos pelos Il Volo. No momento em que vi que estavam de regresso ao Sanremo fiquei de pé atrás. Foram os meus vencedores em 2015 e ainda não ultrapassei o roubo. Acontece que, apesar disso, não sou surda. Sempre achei que havia ali qualquer coisa que não funcionava. Acho que estão em níveis muito diferentes (há um deles em particular fraquíssimo quando comparado com os restantes) e não entendo como é que conseguiram alcançar a fama. Uma música dentro do género? Sim senhora. Um álbum inteiro? Não consigo ouvir. Bastaram-me poucos segundos para perceber que esta "Musica che resta" é muito inferior a "Grande Amore". É pop sem qualquer tipo de magia e onde se notam as diferenças vocais dos três. Não há o crescendo maravilhoso de "Grande Amore" nem haverá certamente o 3.º lugar eurovisivo caso ganhem.


Simone Cristicchi apresenta-nos a melhor interpretação da noite. "Abbi cura de me" é "apenas quatro acordes e um punhado de palavras". É uma música simplíssima mas com um poema extraordinário que demorou anos a ser escrito. É uma dedicatória ao seu filho e um momento arrepiante. Simone tem qualquer coisa em si capaz de transformar a mais simples das melodias em magia. Desconfio que, se saísse vencedor do Sanremo, recusaria ir à Eurovisão o que seria uma pena. Não acredito que esteja em competição por querer vencer mas seria justo. Receberia os meus votos em maio.


Irama é um rapaz muito simpático que participou no Sanremo Giovani em 2016 e não conseguiu impôr-se no mundo da música. Podem achar que é por ser difícil singrar saindo-se da competição secundária mas permitam-me que vos dê dois nomes que competiram nesse mesmo ano: Francesco Gabbani e Ermal Meta. Irama não singrou por não ter metade do talento que qualquer um dos anteriores tem. Está no grupo dos favoritos por ter uma fanbase enorme. A sua música é mais moderna que as demais mas falta-lhe sempre algo na interpretação. Como ponto forte tem a letra com uma história absolutamente incrível e capaz de arrepiar qualquer um.


O grande favorito à vitória final (e a previsão da nossa rubrica Destino Israel) é Ultimo que vem com uma música que está longe de ser a melhor dele. Niccolò Moriconi, o nome verdadeiro do rapaz, é um jovem com um talento enorme a nível da composição e da escrita. "I tuoi particolari" vive da interpretação intensa e é uma canção muito menos arriscada que "Il ballo delle incertezze" com que venceu o Sanremo Giovani no ano passado. A canção deste ano é uma balada pura com um final forte e que lhe permite estar confortável nos graves e nos agudos. Isto bem cortado dá top 10 (merecido!) no ESC.

QUEM VAI VENCER?


Ultimo, Irama e Il Volo vão ser o top 3 do público. Diria que o Simone ganha o voto do júri e o Ultimo ganha o voto da imprensa. Tendo em conta que o júri não vai dar lugares cimeiros nem aos Il Volo (se em 2015 não deu, imaginem este ano) nem ao Irama mas vai com certeza premiar o Ultimo, não tenho grandes dúvidas que a Itália vai voltar a enviar quem eu quero pelo 3.º ano consecutivo. Se quiserem saber de antemão quem vai representar a Itália é só perguntarem. Estou a tornar-me perita nisto.

Vídeos: RAI/Imagens: RAI, corrieredellosport.it, affaritaliani.it, oasport.it

[Crónica] A ingratidão dos "Triunfos" espanhóis

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Espanha, o que fazemos com vocês?

Chegou a altura dos nossos melhores (e únicos) vizinhos escolherem qual é canção que representará o país das sestas da hora de almoço, canção esta que será inevitavelmente sobrestimada na capacidade de alcançar os primeiros 20 lugares da tabela da final da Eurovisão pelos espanhóis.

Dissemos adeus ao totalmente eficaz, nada-dramático, Objetivo Eurovisión (saudades de ver a Segunda Guerra Civil Espanhola em direto!) e acolhemos o maior sucesso da televisão espanhola como final nacional: a Operación Triunfo

Porque é que a Operación Triunfo poderia ser o programa ideal para escolher o representante espanhol? A gala da Eurovisão da Operación Triunfo em nada se assemelha ao Objetivo Eurovisión. Os espanhóis, a este ponto, acompanharam o percurso de dezasseis  millennials que nada sabiam sobre música e que, no final do seu percurso numa academia de música, são melhores performers do que qualquer outro participante de um programa rival (e de muitos artistas consagrados!). 

Nada poderia correr mal, certo? 

"Camina! Da un paso al frente y dramatiza!"

Em 2017, foi-nos apresentado, para a final nacional espanhola, um mix de canções medíocres, de cinco finalistas que nada sabiam sobre a Eurovisão e de pouco interesse da parte de todos envolvidos (até do homem responsável pelas luzes). No final, correu tudo bem. Os espanhóis escolheram a canção menos medíocre, escolheram uma narrativa e, atrevo-me a dizer, escolheram uma boa representação para o país (mesmo que tenham sido um flop tão grande, madre mía!).

Chega 2018 e o cenário está mais esperançoso: o cast da Operación Triunfo revela-se ser extremamente problemático (como os espanhóis amam!) e extremamente diferente do pãozinho-sem-sal-que-queridos-que-eles-são do ano anterior.  Sejamos sinceros, os participantes desta temporada da Operación Triunfo em tudo são superiores quando em cima de palco.

Então, quando chega o momento de escolher o representante para a Eurovisão, nada pode correr mal, não é?

"Quando deram a pior canção ao Famous"

Vamos tentar explorar desta forma: tu és um jovem de 21 anos que seguias com a tua vida aborrecida, eurodrama-free, quando foste selecionado para o programa televisivo mais bem-sucedido do país. Olhas para o TOP 40 nacional e vês Aitana, Lola Indigo, Aitana outra vez, Ana Guerra, Aitana outra vez e Alfred, e percebes que a Operación Triunfo é, muito provavelmente, a tua melhor chance para uma carreira musical. Assinas um contrato que tem em letras pequenas “Aceito ser obrigado a ir à Eurovisão, ao evento que colocou a Pastora Soler e a melhor canção eurovisiva espanhola em 10º lugar (por baixo da canção ridiculamente genérica que é "Standing Still"). Aceito ir à Eurovisão com o que me obrigarem a cantar na gala de Eurovisão”. 

Acontece que os triunfitos do ano não querem ir à Eurovisão. E os que querem ir à Eurovisão têm as piores canções. 

Ir à Eurovisão é um privilégio dado a 0.00000002% da população mundial (fiz as contas!). Não há nada que chegue aos calcanhares da audiência da Eurovisão (sim, a toxicidade-masculina-disfarçada-com-Lady-Gaga Superbowl incluída). O que pode passar na cabeça de um jovem de carreira inexistente para não querer aproveitar-se destes números? 

Digo-vos, se eu fosse um triunfito, fingia entrar em coma no dia da Gala da Eurovisão.

Os participantes da Operación Triunfo não são ingratos. Toda o contexto onde se encontram é agudamente problemático. Mesmo que as canções escolhidas pela TVE fossem todas ao nível de “Quédate Conmigo”, existem razões compreensíveis pelas quais recusar ir à Eurovisão faria todo o sentido.

"Pensando como cair do palco e fingir que foi acidente"

Quem ganhar a gala da Eurovisão no domingo será amaldiçoado com um fator: a primeira canção do seu reportório, a sua apresentação ao mundo, não será o produto da sua identidade como artista porque o “vitorioso” não escolheu um único acorde da canção e passa 3 minutos a cantar sobre marcha-atrás. 

A canção poderá ser, para um dos triunfitos, a canção que marca a sua carreira (se flopparem no resto da vida, claro), a canção com que vão ter de fechar todos os concertos. Agora esta oportunidade, que parecia ser o ponto de viragem para uma pessoa que queria uma carreira na indústria musical, tem o potencial de ser um percurso mal traçado.

Ninguém tem de sentir o tóxico conceito de patriotismo que é impingido à força militar. Recusar representar o país num programa televisivo para todo o globo não pensar que a tua carreira será baseada em onomatopeias pouco inspiradas ou reggaetons que só existem para faturar nas costas do sucesso de outras canções virais, é perfeitamente normal. 

Mas os triunfitos não podem recusar. 

"Bem-vindos à gala da Operación Eurodrama!"
Agora temos um problema: os espanhóis vão votar na melhor canção para ir à Eurovisão, mesmo que os seus representantes sejam piores que o “Não Sei Como Conseguem Ouvir Esta Porcaria De Música” Sobral, ou vão votar nas únicas duas pessoas que querem ir para Telavive? 
Se eu fosse espanhola, rezava já 3 Pai-Nossos. 

Sabem qual é a solução? Voltem a dar ao mundo a bênção que foi o Objetivo Eurovisión. Uma seleção nacional de artistas que querem ir à guerra (ou outra analogia que inclua socar os jurados quando a Mirela não ganhar).

[Crónica] Sanremo: o escândalo que afinal não é assim tão escandaloso

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É bastante provável que isto tenha passado ao lado da maioria dos eurofãs mas eu estou cá mesmo para vos trazer as melhores coscuvilhices. Após a primeira noite de Sanremo (que nenhum de nós viu porque temos amor à vida) tornou-se óbvio que Ermal Meta e Fabrizio Moro eram os grandes favoritos à vitória. O share médio de audiência foi de mais ou menos 50% e, quando os dois subiram ao palco, de 60%.

Na manhã seguinte rebenta o escândalo com os órgãos de comunicação italianos a noticiarem um suposto plágio. O meu italiano não é grande coisa mas bastou-me abrir uma destas notícias para perceber a estupidez que se passava. De facto, o refrão de "Non mi avete fatto niente" é exatamente o mesmo de "Silenzio" e ninguém, nem os cantores, o nega. Isto é capaz de ter sido o maior escândalo italiano desde a eliminação da seleção do mundial 2018.



Os créditos de "Non mi avete fatto niente" são dados a três pessoas: os dois cantautores e Andrea Febo (que já colaborou com Fabrizio Moro). Este último é o único autor de "Silenzio", uma música que foi enviada para o Sanremo 2016 e rejeitada. "Silenzio" nunca foi oficialmente lançada nem comercializada e os vídeos que existem no youtube foram publicados depois da revelação de "Non mi avete fatto niente". Um plágio pressupõe roubo. Quanto muito isto foi pedir emprestado. Ermal Meta e Fabrizio Moro viram ali potencial e transformaram a canção com os versos e a letra completamente diferentes. Plágio faz o Tony Carreira por creditar músicas de outros como suas. Plágio fizemos todos nós quando copiámos trabalhos inteiros da wikipédia.

Não fosse isto suficiente, parece que há uma regra no Sanremo que permite que 30% da música não seja inédita. É o caso. Se eu acho esta regra ridícula? Sim, mas também não acho justo que músicas fiquem na gaveta por não serem selecionadas para determinados concursos e não haver meio de as lançar. Aquando do envio da música os cantores avisaram os responsáveis pela seleção disto mesmo e foram aceites. Durante entrevistas referiram novamente este facto. Parece-me bastante óbvio que, se não quisessem realmente usar este refrão, teriam composto uma música sem ele já que ambos andam nisto há muitos anos.

Com tanto falatório sobre desqualificação, eis que o twitter se une e a hashtag #IoStoConMetaMoro chega a trend mundial com vários órgãos de comunicação a usá-la. Ermal Meta e Fabrizio Moro eram para ter regressado ao palco do Sanremo na segunda noite mas a atuação foi suspensa o que não deixa de ser ridículo já que, se os responsáveis aprovaram a música em primeira instância, porque é que tinham dúvidas da sua elegibilidade passados uns meses? Entretanto os cantores continuam na competição e o vídeo da atuação ultrapassou o milhão de visualizações em menos de 24 horas.

E se "Non mi avete fatto niente" chega ao ESC?

O regulamento do ESC está longe de ser claro neste aspeto. "A música não deve ter sido lançada comercialmente antes de 1 de setembro". Até aqui tudo bem. Mas poderá a Itália ter de alterar a sua música? Quem o decide, em última instância, é o supervisor executivo do ESC, com a aprovação do grupo de referência. Diria que, à partida, "Non mi avete fatto niente" está mais que elegível para o ESC se tivermos em conta decisões passadas como a participação de Alyona Lanskaya em 2013 com "Solayoh" que era de 2008 e estava disponível online ao contrário de "Silenzio". Assim sendo, resta-nos esperar por sábado (ou, neste caso, domingo às 3 da manhã). 

Vídeo: RAI e VINCENT / Vincenzo Errico/Imagem: Rockol

[Crónica] ECY 2017: O que aconteceria se a Eurovisão não tentasse agradar ao público geral?

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O que é a Eurovisão quando despimos todos os adjetivos proeminentes da Eurovisão que conhecemos? O que é a Eurovisão quando não existe pressão para agradar ao público geral? Tivemos um sabor de resposta durante o Eurovision Choir Of The Year 2017.

Ninguém sabia o que realmente seria o Coro do Ano da Eurovisão, dado que o certame teve a sua estreia este ano, mas poucos mostraram interesse em descobrir.  Alguns fãs de Pitch Perfect terão saído desiludidos e todos os que esperavam ouvir “You Raised Me Up” cantado por trinta criancinhas adorável saíram, com toda a certeza, desiludidos. 



O programa começa e o shot inicial é uma visão aérea da arena. Vê-se uma arena parcialmente vazia (ou parcialmente cheia, depende como olham para ao copo) e um palco surpreendentemente não simplístico. Nos primeiros dois minutos conseguimos perceber que não vamos ouvir “Oh Happy Day” e bater palmas entusiasmadíssimos. Não deixa de ser uma canção de abertura imaculada.


Entram as senhoras da Estónia e é-nos apresentada música litúrgica com indumentária tradicional estoniana e uma mistura de exorcismo e alucinogénios. Deixem que vos diga… foi algo de especial. De repente percebi o que estava a ver: a apreciação de um nicho que é do mais talentoso e disciplinado que existe. 


Percam sete minutos a entranhar a atuação do coro dinamarquês. Já ouviram algo com que possam fazer comparações? A resposta é, provavelmente, não. Um brilhantismo teatral que foi, para muitos, a surpresa do formato.



Depois da atuação dos prepubescentes belgas, entram os alemães. Vê-se um beatboxer e o som deste coro é mais fácil de perceber para os meros mortais como eu. Pondo de parte o meu desconforto de ver um coro alemão a apropriar-se da cultura africana, tenho de dizer que nem o elenco do Lion King na Broadway consegue criar uma imersão tão fenomenal! Fui transportada para a selva!


A Eslovénia, que seria a futura vencedora da primeira edição do Eurovision Choir Of The Year 2017, destaca-se por ser um aparente musical criado por alunos que acabaram de tirar um curso todo alternativo sobre música contemporânea como ferramenta de narrativas. A rapariga favorita do maestro, escolhida para solista, é fenomenal!  
Os húngaros vêm de avental e a sua atuação demora dois anos e meio. 


Quero salientar que até este ponto no programa ainda não vimos um único grupo vestido com algo que não nos deixe confusos e não vão acreditar… ainda não ouvimos inglês! Eu sei… que tipo de Eurovisão é esta? 




A minha atuação favorita foi, de longe, a do País de Gales. Se vos perguntarem qual é a música de elevador que se ouve quando formos subir para o céu divinal (porque é para lá que vamos, certo?) digam que é algo deste género. Outra solista fenomenal! E os meus olhos ficaram por lubrificar durante 8 minutos! Apenas podemos sonhar ter tido tal dimensão de talento quando tínhamos aquela idade.



A atuação da Áustria é a prova mais transparente do valor que esta competição tem. Seria fácil pensar que a música tradicional da Áustria é somente a música clássica de que são conhecidos, mas o coro austríaco lembra-nos, com a indumentária e com o acordeão, do folk barroco que inspirou tantos aspetos de The Sound of Music. Quem me dera cantar com tanto entusiamo sobre nabo! R.U.T.A.B.A.G.A!



Mais uma vez vemos a escolha de indumentária tradicional por parte da Letónia. Se acharam estranho as letãs começarem a copiar o jogo de copos do Pitch Perfect, deixem-me que vos introduza a esta nova perspetiva: o jogo de copos do Pitch Perfect teve origem num jogo tradicional letão! Nível de cultura ascendido! 




Com todo o louvor que derramei para estas atuações, será que acho que foi um sucesso? Bem, depende do que realmente era o objetivo deste programa caloiro. 
Se a intenção era criar uma nova superpotência de audiência e de interação internacional, então o falhanço foi abismal. O mundo dos coros não é e nunca será para o cidadão comum. 
Se a intenção era satisfazer todos os indivíduos que se queixam que a Eurovisão já não se fundamenta na expressão cultural e que o que interessa aos grandes nomes, responsáveis pela organização do programa, é unicamente os milhões que lhes entram para o bolso ao explorar o mercado mainstream... então o Eurovision Choir Of The Year não poderia ter sido mais brilhante!


A magia da Eurovisão está na essência que agrada a um grupo maioritário de pessoas, daí o pop e o inglês serem proeminentes. Qualquer pessoa consegue apreciar e perceber um Sergey Lazarev a cantar uma canção pop comercial de frases vagas, em inglês, enquanto sobe uma parede por nenhuma razão lógica. É fácil, é pouco e nem precisamos dos 10% do cérebro que temos à disposição para admirar o trabalho. Na situação oposta encontra-se, por exemplo, a atuação do coro dinamarquês: é necessária toda a energia que se tem no corpo, uns bons headphones e, provavelmente, ajudará conhecer todos os meses de trabalho que são postos na coordenação de trinta vozes diferentes. 

Vou assumir que nenhum de nós consegue realmente dar o valor merecido a este ofício, como nenhum de nós conseguiria distinguir o melhor vinho branco do mundo do vinho Casal Garcia, e é por esta razão que não prevejo um futuro sorridente para este ramo da Eurovisão, mas aplaudo este investimento, que não foi, de maneira nenhuma, incentivado pelos números. 



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