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[Crónica] Tragam a Rússia de volta!


Não sei se estiveram atentos às coisas que nos foram dizendo os organizadores da Eurovisão durante a edição deste ano, mas resume-se tudo numa frase: a Eurovisão não é um concurso político.

Temos reparado nisso ao longo dos anos. Não consigo, assim de repente, lembrar-me de nenhuma música com conteúdo político que tenha pisado o palco eurovisivo. Quando os Homens da Luta, em 2011, falavam do povo andar a gritar nas ruas, referiam-se aos bons tempos em que o Benfica era campeão nacional e o pessoal ia para o Marquês de Pombal festejar. Quando os lituanos de 2010 cantaram "No sir, we're not equal, no, though we're both from the EU" devem ter-se enganado, porque não eram totalmente fluentes em inglês. Quando os Zdob și Zdub voltaram ao concurso em 2022, a música não tinha nada a ver com a união entre Roménia e Moldávia. Podia estar nisto o dia todo. A única música política dos últimos anos era a da Geórgia em 2009 e, como isto não é um festival político, acabou desqualificada.

Se pensarem nas pessoas que vos rodeiam, não há muitas às quais possam dizer "olha, sempre que vejo qualquer coisa sobre isto, lembro-me de ti", mas eu sou uma dessas pessoas (e vocês também devem ser, se estão a ler coisas num site sobre a Eurovisão). Qualquer pessoa que me conheça minimamente há de lembrar-se de mim como "aquela que vê a Eurovisão". Não é necessariamente uma caraterística digna de aplausos, mas é o que temos.

O problema é que eu já não quero ser "aquela que vê a Eurovisão", mas não consigo não a ver. Este ano foi peculiar. Percebi que houve muita gente a "boicotar" o concurso não fazendo conteúdo sobre o mesmo. É engraçado que o boicote seja ficar calado, quando a única pessoa que conseguiu realmente fazer algo relevante pelo concurso nos últimos anos - o Joost - foi precisamente falando. 

Eu vou condenar sempre a maneira como se está a lidar com a situação de Israel, mas isso não vai invalidar que eu veja o concurso para poder dizer mal dele (coisa que, de resto, já fazia antes). E eu não estou mais certa ou mais errada que ninguém, cada um faz o que quer, mas não me venham com moralismos de "não devias ver", "não devias fazer conteúdo", "não devias votar". Certo, mas as finais nacionais já posso ver e comentar, como se não compactuassem com a Eurovisão, é isso? 

Mas indo ao encontro do título deste texto, eu quero que a Rússia volte ao concurso. E quero-o por vários motivos:

  1. Isto não é, como já disse no início, um concurso político, portanto, não há qualquer base para a Rússia ter sido expulsa e para não poder voltar;
  2. O mal do televoto divide-se e as duas nações invasoras anulam-se (ou acabam em 1.º e 2.º lugares, é-me igual);
  3. Os jurados de 2026 da Ucrânia merecem-no depois de darem 10 pontos a Israel;
Além disto, há que dar a mão à palmatória e admitir que a Rússia sempre teve grandes músicas e stagings. Nunca fui particularmente fã, mas sei que é preciso investimento para conseguir levar grandes nomes da música nacional àquele palco e, além da Rússia (e da Itália, por outros motivos), muito poucos países o faziam.

Se querem mais participantes no concurso para colmatar as saídas de Espanha, Países Baixos, Islândia, Irlanda e Eslovénia, tragam a Rússia de volta e, aproveitando a boleia, a Bielorrússia, que sempre nos deu as melhores pérolas nas audições da final nacional. 

Há também outro ponto em que muitos preferem não tocar, mas que é uma realidade: o televoto ucraniano. Eles não têm culpa, mas a verdade é que a Ucrânia, mande o que mandar (veja-se o ano passado), consegue sempre um top 10, muito impulsionado pelo televoto. Como é que isto se ultrapassa? Não sei, mas também não sou eu que tenho de arranjar soluções.

Querer desassociar a música (sendo que a metade do que se ouve na Eurovisão não o chega bem a ser) ou qualquer forma de arte da política é um erro. A Eurovisão foi criada num contexto político europeu péssimo e é assim que está 70 anos depois. Tudo na nossa vida é política, mas a EBU parece não querer ver isso.

A Eurovisão é tão pouco política que a Roménia e a Moldávia entraram numa guerra que acabou no despedimento do diretor da emissora moldava por causa de 3 pontos (e bem, que a Roménia merecia os 12 da Moldávia e dos outros países todos). Reza a lenda que a Hungria pode regressar ao concurso em 2027, decisão que não terá nada a ver com o facto de terem mudado de governo em abril.

Este ano aconteceu o que tinha acontecido há 10 anos: uma das músicas que eu mais odiava ganhou o concurso. Há 10 anos fiquei pior que estragada. Este ano, sabem como é que fiquei? Não quis saber. Podia ser sinal de crescimento emocional, mas é apenas sinal de desinteresse profundo num concurso que foi outrora uma fonte de alegria e vício. Agora, todos os anos quero que acabe e que haja uma vitória israelita para ver como é que a EBU lida com isso. Ainda não foi em 2026, que seja para o ano.

E podem achar que estou a mentir, que não quero realmente que Israel ganhe porque isso pode ditar o fim da Eurovisão, mas a Eurovisão, pelo menos aquela de que éramos fãs, não acabou já há dois anos? Eu não quero a Eurovisão assim. Eu quero a Eurovisão das conferências de imprensa em que podemos conhecer os artistas que cantam as nossas músicas preferidas durante 20 ou 30 minutos e não a Eurovisão dos conteúdos rápidos e supérfluos. Quero a Eurovisão em que se pode falar, em que artistas, imprensa e público não estão condicionados. Quero a Eurovisão em que posso ficar chateada porque os meus favoritos não ganharam, em vez daquela em que fico aliviada porque uma música de que não gosto derrotou o mal maior. Acima de tudo, quero a Eurovisão que foi criada para unir a Europa.

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