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Este Festival da Canção (já) não funciona!

Eu vejo o Festival da Canção há muitos anos e sinto que precisamos de olhar para ele mais a sério. O modelo de Festival que a RTP idealizou em 2017 e que nos trouxe a primeira vitória na Eurovisão e uma série de qualificações consecutivas que nenhum de nós esperava já não funciona. Não é de agora, mas creio que este ano se nota (ainda) mais.

Um modelo que deixou de funcionar há anos

Convidar compositores de renome para escreverem músicas para o Festival foi uma boa ideia, até que se esgotaram esses e a RTP teve de ir cavar bem fundo para encontrar quem aceitasse participar no concurso. Neste momento, quando são anunciados os compositores, ninguém conhece nenhum nome. Juntar a isso mais três métodos diferentes de seleção parece-me excessivo, sobretudo quando temos 600 pessoas que enviaram músicas de livre vontade.

O problema da livre submissão

Falemos da livre submissão: o Festival funcionou com base na mesma durante muitos anos. Com muitas músicas más, é verdade, mas não podemos negar que foi também de lá que saíram excelentes representações (2008, logo à cabeça) e outras tantas que não chegaram a sê-las. Há sempre a questão de se as músicas escolhidas pela RTP de entre as centenas de recebidas são realmente as melhores, mas este ano posso dizer-vos com toda a certeza que não eram. Mesmo sem ouvir nenhuma, consigo afirmar que havia melhor que pelo menos três das que chegaram às semifinais (e que, curiosamente, ficaram todas para trás). 

Qual será, então, o critério de escolha destas músicas? Quem são os jurados que as escolhem? E quantos são? Com chegam a acordo? Como é que ouvem uma "O-pi-ni.ão" e acham "sim, senhor, grande som, vamos meter nas finalistas"? Tantas questões não respondidas e tanta falha depois de, nos passados anos, termos visto músicas tão boas a sair deste método de seleção.

Júri regional ou regionalista?

Depois há, claro, o problema das votações. A conversão de pontos para 1 a 12 é ridícula e, apesar de isso só ter sido um problema real em 2025, quando a vencedora do televoto ficou completamente excluída de poder sequer lutar pela vitória geral depois de o júri a ter colocado num lugar deplorável, continua a não fazer jus àquilo que é a votação do público. Eu quero saber se os Bandidos do Cante tiveram uma vitória esmagadora, quero saber se aqueles dois míseros pontos para a vencedora do júri foram realmente mais que dois pontos aquando da conversão. Da maneira como as coisas estão, ficar em primeiro com 5 mil ou 5 chamadas a mais que o segundo vale a mesma coisa: dois pontos de diferença.

Mas o maior problema é o júri regional, e não é de agora. A cada ano que passa eu penso, antes do Festival, que não é possível sermos tão pequeninos a ponto de cada região atribuir os seus 12 pontos à pessoa que lá nasceu ou lá vive. Por este andar, eu ia ficar deprimida para o resto da vida se fosse ao Festival da Canção e o júri do Centro não me desse os 12 pontos, mesmo que eu tivesse tido uma prestação miserável. 

Não é normal eu saber assim que os artistas são anunciados que o Alentejo vai dar 12 pontos aos Bandidos do Cante. E, neste caso, ainda dou o desconto, porque ficam no 2.º lugar do júri, mas como é que se explica que o júri do Algarve dê 12 ao Sandrino, que não ficou no top 3 de mais nenhum júri? Como é que a Madeira, que não tendo ninguém a concurso, decide que os seus 12 devem ir para a banda escolhida pelos madeirenses vencedores do ano passado? Não quero tirar mérito a ninguém (até porque tanto o Sandrino como os Nunca Mates o Mandarim eram dos meus preferidos), mas se é para isto, mais vale nem selecionarem júri e atribuírem logo os pontos previamente consoante a distância ao quilómetro do local de nascimento ou residência de cada concorrente. Isto nem pode ser bom para os artistas, que sabem que aqueles 12 pontos não são reais, que percebem que aquelas três pessoas não gostaram verdadeiramente da sua música. 

Como é que isto se resolve? A indústria musical portuguesa é demasiado pequena e toda a gente se conhece (ninguém me tira da cabeça que o vencedor do júri só o foi porque toda a gente conhecia a compositora que ali estava ao lado), portanto, apesar de não ser a maior fã da solução, um júri internacional resolvia este problema. Em edições com concorrentes do Algarve não podíamos incluir um júri do Reino Unido, mas, tirando isso, acho que as questões regionais estavam salvaguardadas.

A hipocrisia do boicote

Escusado será também dizer que este ano havia um grande elefante na sala: a Eurovisão era tema tabu. Eu não condeno os Bandidos do Cante por aceitarem ir à Eurovisão. Se a RTP aceitou participar, alguém teria de ir e mais vale que sejam os vencedores do concurso. Isto criou, logo à partida, um desinteresse tremendo pelo Festival. As músicas tiveram pouquíssimas visualizações no youtube, não entraram em nenhum top viral e as próprias atuações das semifinais foram pouco vistas. Não culpo quem trabalha no Festival, porque creio que a opinião da maioria dessas pessoas será contrária à da direção da RTP, mas houve um desleixo tremendo na divulgação este ano.

Mas falemos do boicote dos artistas. Os artistas aceitaram o convite (ou propuseram-se) da RTP para participar num programa de televisão que serve para escolher o representante do país na Eurovisão. O Festival da Canção nunca foi nem nunca será outra coisa por muito que o tentem reformular. A RTP quer um programa que mostre a música nacional, mas isso é um Sanremo. O Sanremo é um festival mais antigo que a própria Eurovisão e que serve para mostrar nova música dos maiores nomes da música nacional. A Eurovisão é uma consequência. Em Portugal acontece precisamente o inverso e, para haver uma aproximação, muita coisa precisa de mudar, a começar pela qualidade musical. 

Um artista que aceita participar no FC, aceita participar num concurso ligado à Eurovisão. Pouco é o benefício de participar no concurso. Mesmo quem acaba por vencer o FC e ir ao ESC tem pouco retorno, quanto mais quem não consegue isso ou fica até na semifinal. Quantos concorrentes que não venceram o FC é que ficaram famosos nos últimos anos? Eu respondo-vos: nenhum. Portanto, aceitar concorrer para mostrar a sua música não me parece um motivo muito válido, sobretudo num ano de tão pouco interesse no Festival.

Ainda no ano civil passado, a EBU propôs a todas as emissoras uma votação (feita de forma manhosa, é certo) em que se definia a possibilidade de poder expulsar Israel do concurso. Houve emissoras que quiseram fazê-lo, mas a RTP não foi uma delas. A RTP apoiou a continuação de Israel no concurso. Boicotar a Eurovisão, mas não boicotar quem votou a favor de Israel parece-me de uma hipocrisia tremenda. Além disso, lembrem-se que a Eurovisão é vista por milhões de pessoas, é uma plataforma imensa para mostrar pontos de vista.

2024 foi um ano eurovisivo horrível, mas provou-nos que ir à Eurovisão e fazer perguntas é muito mais impactante do que boicotar qualquer final nacional vista por meia dúzia de pessoas. O Joost, depois de mandar uns bitaites (sim, porque não me venham com a história da agressão) foi proibido de participar, mas ficou marcado na história do concurso como a pessoa que começou esta guerra e que fez com que as conferências de imprensa deixassem de existir. Não será o caso, mas eu prefiro ter alguém que vá à Eurovisão e fale bem alto para todos os que a veem, do que alguém que participa no Festival da Canção promovido pelos ajudantes da EBU no apoio a Israel, mas depois se recusa a ir a um palco maior dizer o que pensa.

Não condeno os Bandidos do Cante por dizerem que se querem focar na música, quem me dera poder focar-me na música quando se fala de Eurovisão. E não os condeno porque eles certamente não terão noção da realidade do concurso. Condená-los-ei depois, quando lá chegarem, e continuarem a dizer a mesma coisa depois de perceberem realmente o que se passa. Porque basta conhecer um bocadinho a Eurovisão para saber que há muitos anos que aquilo não é um concurso de música. Se o fosse, porque é que a Rússia não pode participar?


Que futuro podemos ter?

É muito fácil dizer que as coisas estão mal, mas como podemos resolvê-las? Creio que o Festival da Canção está de tal maneira estereotipado que será difícil tirar-lhe a imagem mais negativa que possa ter junto da maioria das pessoas. O importante é não deixar que os poucos que ainda defendem o concurso não fiquem também com essa imagem.

O que se passou com a Henka no ano passado acabou com a pouca paciência que havia para a conversão de pontos. Não sei se será por quem organiza o Festival ser de letras, mas que posso arranjar-vos um excel com a fórmula da regra de três simples para calcularem os pontos. Do júri já falei e, sinceramente, não vejo outra solução que não a do júri internacional (que nunca colocaria a música n.º 2 em primeiro lugar, diga-se de passagem).

Além disso, é importante garantir que há músicas boas. Porque este ano, a sensação geral era de que as músicas não eram más, mas também não eram boas. A qualidade musical tem vindo a decair, mas vão se aproveitando uma ou duas músicas todos os anos que disfarçam. Este ano foi bastante óbvio que não havia nada realmente muito bom e também não houve esforço para fazer stagings (ou, se houve, foram más que doeram, exceção feita ao Dinis). 

Se os compositores que realmente querem para o Festival disseram que não, não aceitem as vossas 2.ª ou 3.ª escolhas, virem-se para a livre submissão ou escolham mais miúdos das escolas, porque este ano correu bem.

O Festival da Canção nunca será mais do que uma seletiva para a Eurovisão e está tudo bem com isso. Nós só queremos poder escolher de entre boas músicas. Só queremos ter artistas com boas performances. Só queremos uma boa produção. Só queremos poder dizer a quem não viu "não sabes o que perdeste, foi excelente" em vez de "tu é que tiveste juízo". Infelizmente, este ano não tivemos nada disso.

Imagem: RTP

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