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Depois de várias semanas de espera, a EBU revelou o número total de espetadores da Eurovisão 2026: 131 milhões.
Depois de um anunciado boicote, as audiências da Eurovisão 2026 desceram face aos anos anteriores e foram de 131 milhões a nível mundial. Valores como as visualizações únicas do youtube (4,6%) e o número de países votantes (148) subiram face ao ano passado, mas na métrica que mais importa, a Eurovisão perdeu cerca de 35 milhões de espetadores quando comparamos com a edição de 2025.
Nos últimos anos, as audiências da Eurovisão têm-se situado na casa dos 160 milhões, portanto, esta é uma descida acentuada, sobretudo depois das saídas de cinco países e dos boicotes anunciados por muitos fãs.
Mas enquanto os islandeses optaram por ficar de fora, os restantes nórdicos estiveram em frente à TV a acompanhar tudo, com shares bastante altos: Finlândia (92.8%), Suécia (85.5%), Noruega (83.4%) e Dinamarca (79%). Pelo contrário, registaram-se grandes descidas em alguns países: Polónia (-3.8 milhões), Reino Unido (-3.7 milhões) e França (-3.3 milhões).
O relatório da EBU destaca ainda a forte presença no digital, com mais interações nas várias plataformas. Pode ler o relatório completo aqui.
Em Portugal, não chegaram a ser meio milhão os acompanhantes da grande final, registando-se um resultado pior do que em 2019, último ano em que não conseguimos qualificar-nos para a final.
Fonte e imagem: EBU
No outro dia apareceu-me um reel de alguém a dissecar a letra da música moldava deste ano, mas numa língua que eu não percebia. Como desocupada que sou, fui fazer a minha pesquisa e trago-a agora até vós.
Foi no dia 28 de março deste ano que foram publicadas as seguintes palavras na rubrica Apreciações Musicais: "Música com toques tradicionais, com um mix ridículo (mas que funciona) de idiomas e frases soltas aleatórias". Podia estar aqui a fazer pouco de um dos meus colegas, mas a verdade é que fui eu a escrever isto sobre a minha música preferida do ano. Volvidos dois meses e um algoritmo minado por coisas moldavas há semanas, descobri que não era bem assim e que "Viva, Moldova" está carregada de significado.
Isto é um mix entre coisas que li e ouvi e a minha própria interpretação e, portanto, pode estar tudo errado, mas o Satoshi também não há de ver isto e entender português, apesar de nos esquecermos constantemente que o romeno é uma língua muito mais parecida com a nossa do que parece à partida.
Começo já por parabenizar a vírgula a separar o vocativo no título da canção. Se eu estereotipo pessoas e acho que alguém que canta rap não sabe usar pontuação? Sim, mas fui provada errada. O significado da canção é óbvio: uma carta de amor ao seu país. A Moldávia costuma presentear-nos com músicas com toques tradicionais, mas esta elevou isso ao extremo.
"Viva, Moldova" começa com um som que se ouve no aeroporto de Chisinau sempre que um avião parte (para aí de duas em duas horas, que aquilo tem oito portas, se bem me lembro). A canção está escrita em sete línguas, mas prestemos atenção a cinco: romeno, latim, italiano, espanhol e francês. Todas elas são línguas românicas e não creio estarem ali por acaso. Quando pensamos nesta família linguística (e sinto-me ofendida por não haver uma única palavra em português), esquecemo-nos constantemente do romeno, mas há aqui uma tentativa clara de nos lembrar e deixem-me que vos diga que eu tive três anos de francês e acho que consigo perceber mais palavras em romeno.
Eu achava que estes locais estavam aqui ao acaso. Soroca é uma cidade moldava junto à fronteira com a Ucrânia, um dos pontos mais a leste do país. Por seu lado, Palma de Mallorca é um local que imediatamente identificamos como parte da Europa Ocidental. O próprio autor disse que foi difícil encontrar dois pontos distantes e que tentou com Lisboa, mas não conseguiu rima. Introduzindo a Europa ali no meio, há duas leituras possíveis para o verso:
Ainda no seguimento do ponto anterior, a Moldávia teve a sua independência da URSS em 1991. Passaram-se apenas 35 anos e, apesar de os anos 90 parecerem já distantes, é muito pouco tempo para um país se consolidar. A arquitetura soviética está por todo o lado, com edifícios enormes e muitos deles abandonados em plena capital e a língua russa ouve-se pelas ruas, mas a Moldávia é um país independente, novo e democrático.
Descobri, há pouco, que o Satoshi é de uma cidade pequena e só nos sítios pequenos é que isto se entende. A casa de uma pessoa é a casa de todas as pessoas e quem cozinha uma zeamă (sopa tradicional moldava) para um, cozinha para a freguesia toda. Mas há também uma forte presença em toda a música da temática da emigração. A Moldávia é o país mais pobre da Europa e, com isso, as pessoas precisam de oportunidades melhores. Nós próprios recebemos tantos moldavos que a companhia aérea moldava tem uma rota Chisinau - Lisboa.
Talvez isto já seja abusar, mas o pó é um monte de nada e as estrelas o símbolo europeu a que o país aspira enquanto anda perdido a gritar por nós, que já estamos nesta união maravilhosa.
Segue-se a segunda estrofe com referências à Doina, a música tradicional moldava (o nosso fado, portanto), e à Hora, a dança tradicional que vimos no palco eurovisivo em 2009, e a alguns símbolos da cultura moldava que nós não fazemos ideia do que são, mas que a internet conhece:
A terminar a estrofe, o vine Moldova, talvez aquilo pelo qual o país é mais conhecido. A Moldávia está repleta de caves de vinho e exporta muito. Diz quem provou que é vinho bom. Eu, como sou forreta, não trouxe nenhum.
Salvador Rio é o grande vencedor da edição portuguesa do The Voice Kids e vai representar o país na Eurovisão Júnior 2025.
Temos reparado nisso ao longo dos anos. Não consigo, assim de repente, lembrar-me de nenhuma música com conteúdo político que tenha pisado o palco eurovisivo. Quando os Homens da Luta, em 2011, falavam do povo andar a gritar nas ruas, referiam-se aos bons tempos em que o Benfica era campeão nacional e o pessoal ia para o Marquês de Pombal festejar. Quando os lituanos de 2010 cantaram "No sir, we're not equal, no, though we're both from the EU" devem ter-se enganado, porque não eram totalmente fluentes em inglês. Quando os Zdob și Zdub voltaram ao concurso em 2022, a música não tinha nada a ver com a união entre Roménia e Moldávia. Podia estar nisto o dia todo. A única música política dos últimos anos era a da Geórgia em 2009 e, como isto não é um festival político, acabou desqualificada.
Se pensarem nas pessoas que vos rodeiam, não há muitas às quais possam dizer "olha, sempre que vejo qualquer coisa sobre isto, lembro-me de ti", mas eu sou uma dessas pessoas (e vocês também devem ser, se estão a ler coisas num site sobre a Eurovisão). Qualquer pessoa que me conheça minimamente há de lembrar-se de mim como "aquela que vê a Eurovisão". Não é necessariamente uma caraterística digna de aplausos, mas é o que temos.
O problema é que eu já não quero ser "aquela que vê a Eurovisão", mas não consigo não a ver. Este ano foi peculiar. Percebi que houve muita gente a "boicotar" o concurso não fazendo conteúdo sobre o mesmo. É engraçado que o boicote seja ficar calado, quando a única pessoa que conseguiu realmente fazer algo relevante pelo concurso nos últimos anos - o Joost - foi precisamente falando.
Eu vou condenar sempre a maneira como se está a lidar com a situação de Israel, mas isso não vai invalidar que eu veja o concurso para poder dizer mal dele (coisa que, de resto, já fazia antes). E eu não estou mais certa ou mais errada que ninguém, cada um faz o que quer, mas não me venham com moralismos de "não devias ver", "não devias fazer conteúdo", "não devias votar". Certo, mas as finais nacionais já posso ver e comentar, como se não compactuassem com a Eurovisão, é isso?
Mas indo ao encontro do título deste texto, eu quero que a Rússia volte ao concurso. E quero-o por vários motivos: