Com uma estratégia que pode até estar definida internamente, mas que cá fora pouco se sente, o Festival da Canção 2026 está prestes a arrancar — e a verdade é que quase ninguém parece ter dado conta! E digo-o como fã atento: não há ambiente. Não há expectativa no horizonte. E se quem acompanha o Festival ao detalhe sente esta frieza, dificilmente o público em geral estará mais entusiasmado. Não devia ser sinal de alarme? Ou se calhar, e este ano em específico, quer-se mesmo isto assim? Quem é como quem diz: no nevoeiro!
Para mim, há só uma pergunta que se impõe: que rumo está a ser traçado? Por que motivo, este ano, estamos assim? É notório que faltam informações básicas para criar antecipação. Não conhecemos alinhamentos completos. A ordem de atuações tarda. Sobre ensaios, silêncio. As redes sociais do FC têm estado discretas ao ponto de parecerem ausentes ou mesmo inexistentes (como é possível!). E quando a comunicação falha em criar narrativa, instala-se inevitavelmente a sensação de vazio...
Agora um preâmbulo: Não é a primeira vez que deixo ‘críticas’ à forma como o Festival tem sido conduzido nos últimos anos. Não o faço só porque sim. Faço-o porque acredito no formato e porque me recuso a aceitar que questionar seja sinónimo de atacar. E sei que há mais gente a sentir o mesmo — ainda que nem todos tenham coragem de o verbalizar.
Em 2025, antes da Eurovisão, apontei reservas à vitória dos NAPA — não à banda, mas ao modelo de votação do FC que, na minha opinião, continua a precisar de revisão. Reconheci depois o percurso meritório que o grupo fez e continua a fazer. Isso mesmo faz parte, na minha ótica, de uma análise honesta: criticar quando se discorda, reconhecer quando há mérito.
Mas agora falamos de 2026. A primeira semifinal acontece já este sábado (21). E, ainda assim, não existe a sensação de que estamos à porta de um dos momentos centrais da temporada televisiva da RTP.
Num ano com mudanças relevantes — nova abordagem de produção, contexto diferente, um palco novo, Filomena e Vasco a conduzirem tudo... decisões que poderiam gerar conversa — o que temos é contenção. E contenção excessiva raramente gera entusiasmo.
“Quem mais sente que o FC 2026 está frio e sem qualquer entusiasmo ponha o dedo no ar!”
Pergunto, sem dramatismos, mas com frontalidade: Estamos mesmo a sentir o Festival? Quem está a ouvir as canções fora da bolha habitual? Onde está o debate, o buzz, a curiosidade?
O silêncio não é algo neutro. O silêncio, antes, comunica!
O que pode estar a motivar toda a contenção este ano — Portugal na Eurovisão
Há ainda o tema sensível da posição do canal público no ESC, e das declarações de vários dos participantes no Festival sobre o boicote, em caso de vitória. É um assunto mais que delicado, naturalmente. Mas ignorá-lo não o faz desaparecer. Se existe um elefante na sala, fingir que ele não está lá dificilmente será estratégia sustentável. Nem tão pouco sacrificar tudo o resto para se poupar do que possa aí vir...
Por outro lado, também nós, fãs, parecemos mais conformados. Talvez pela gratidão pelo investimento feito nos últimos anos no Festival. E esse reconhecimento é justo. O trabalho da equipa que tem feito “das tripas coração” merece ser valorizado.
Mas a gratidão não pode significar silêncio absoluto.
Este ano sente-se menos impacto fora da “bolha eurovisiva”. Menos números. Menos comentários. Menos discussão. E quando não há reação — nem positiva nem negativa — instala-se algo mais preocupante do que a crítica: a indiferença!
Ser fã não é bater palmas a tudo. Também não é declarar derrotas antecipadas. É ter capacidade crítica e exigir que uma competição que já provou ser relevante continue a ambicionar mais. E não custa assumir que isso não está a acontecer, ou, melhor — está a desaparecer.
“Não tem mal nenhum ser fã do Festival e conseguir ter a capacidade de escutar e dizer — não temos canções competitivas. Não compro as opiniões de quem consegue ir para a frente de um ecrã elogiar todas as canções — nem os próprios acreditam nisso”
Portugal pode perfeitamente voltar a alcançar uma final da Eurovisão. Isso não está em causa. O que está em causa é o caminho até lá. Porque o Festival deveria ser um momento de mobilização coletiva, de conversa entre os pares, de um entusiasmo visível — e não um evento que parece voltar a passar mais despercebido.
Não trago fórmulas mágicas. Trago, talvez assim o diga, uma certa inquietação. E acredito que não estou sozinho. Ou pelo menos assim o espero.
Porque, se há algo que permanece, é isto: os fãs continuam aqui. Continuam atentos. Continuam exigentes. E continuam a querer que o Festival cresça — ou, melhor: que não se acomode.
E é precisamente por isso que vale a pena falar. E sim: nós, os fãs, nunca vos abandonaremos, RTP!
Opinião de Pedro Damasceno Lopes (ESC 38N)

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