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[Crónica] As 5 canções mais subvalorizadas e sobrevalorizadas do ESC 2019

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Já se passaram uns tempos desde a Grande Final do Festival Eurovisão da Canção (ESC) 2019 e nós temos conhecimento da depressão pós-evento que se instala anualmente nos vossos corações. Estejam descansados, o Crónicas vai reacender a chama daquela noite, analisando as canções mais subvalorizadas e sobrevalorizadas desta edição. 

Este ano fez-se a vontade aos eurofãs que adoram um bom drama intenso e borbulhante. É que este ano o que não faltou foi polémica, desde a falta de mestria dos produtores do espetáculo até aos resultados inesperados. A classificação final do ESC 2019 é surpreendente e nós estamos aqui para a analisar. Fiquem com as 5 canções mais subvalorizadas e sobrevalorizadas do ESC 2019.

As 5 canções mais subvalorizadas do ESC 2019

5º lugar: Hungria



Joci foi afastado da competição mais cedo do que se estava à espera. De facto, o 12º lugar alcançado na 1ª semifinal não faz justiça a um tema que, apesar de não ser brilhante, era merecedor de um lugar na final. A atuação comovente e a paixão na voz do intérprete não convenceram a Europa.

4º lugar: Israel




O 23º lugar alcançado na final do evento foi fruto do estado político do país e da péssima reputação com que ficaram os produtores israelitas ao proporcionar à Europa um evento com demasiados problemas técnicos. A canção é excelente, a atuação é adequada e a voz de Kobi foi um dos melhores momentos daquela noite. 

3º lugar: Portugal



Este ano coube aos portugueses erguerem a cabeça após a grande derrota que sofreram. É um dos poucos anos em que podemos afirmar que Portugal estava preparado para a Eurovisão, mas a Eurovisão não estava preparada para Portugal. Como se não bastasse termos sido eliminados mais cedo do que o previsto, acabámos por não ir além do 15º lugar na semifinal, sendo um dos piores resultados de sempre para o país. E qual a razão para tal ter acontecido? Ninguém sabe...

2º lugar: Polónia




Achavam que as Tulia não se tinham classificado para a final do evento, tendo terminado na 11ª posição da semifinal? Enganam-se! Houve problemas com a votação dos jurados e a Polónia ficou de fora por um simples erro técnico. Não vejo medidas a serem tomadas, mas o mínimo era colocar a Polónia diretamente na final do ESC 2020 com as mesmas representantes. "Fire of Love" é um excelente tema folk e cultural que fez falta no alinhamento da final de sábado. 

1º lugar: Arménia



Pela segunda vez consecutiva, a Arménia fica fora da final, tendo terminado na 16º posição da 2ª semifinal. Um canção fortíssima, uns vocais quase perfeitos e uma apresentação energética foram desprezados pela Europa, sendo o caso mais gritante de injustiça este ano. Talvez a agressividade do conjunto tenha resultado numa posição incompreensível, mas um lugar na final era mais do que merecido.  



As 5 canções mais sobrevalorizadas do ESC 2019

5º lugar: Malta





Mas porque raio está Malta nos países mais sobrevalorizadas do ESC 2019, não tendo ido além de um 14º lugar na final? Porque a falta de carisma da cantora foi o que sobressaiu durante toda a atuação. As desafinações estiveram presentes e, sinceramente, foi demasiado aparato para uma canção boa, mas simples. Não mereciam ficar no top 15. 

4º lugar: Lituânia




"Run With The Lions" terminou a sua participação no 11º lugar da 2ª semifinal, um resultado injusto para um tema e uma apresentação em palco pouco memoráveis e genéricos. Havia tantas outras canções nesta semifinal que mereciam a final e que acabaram atrás desta cara bonita, capaz de conquistar votos. 

3º lugar: Azerbaijão




Sem dúvida que "Truth" é um bom tema radiofónico. Mas o 8º lugar na final não foi fruto da canção, mas sim da atuação de Chingiz. É um daqueles casos que fica na memória pela atuação e onde a canção é chutada para segundo plano. 

2º lugar: Estónia



Victor Crone não é um bom intérprete, "Storm" é aborrecida e a atuação em palco foi um verdadeiro desastre. Os estónios deviam agradecer  à boa aparência de Victor, porque foi isso que os colocou na final. 

1º lugar: San Marino




Nunca na história da Eurovisão eu ouvi alguém a desafinar durante tanto tempo e a chegar à final do concurso. O Serhat não consegue cantar notas altas e, pelos vistos, nas notas baixos, é um expert a cantar fora do tom. San Marino consegue o seu melhor resultados na competição com o pior cantor de sempre a concurso. Parabéns San Marino! E Serhat... és um rei! 

Vídeos: eurovision song contest


[Crónica] ESC 2019: não sei porque é que ainda gosto da Eurovisão

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Toda a gente que me conhece sabe o quanto eu adoro este festival. Na verdade, ia escrever que vivo para a Eurovisão, mas a vida adulta é uma chatice, os tempos são outros e as prioridades também. 

Aos que me vão conhecendo, deixo passar algum tempo antes de dizer “olha, eu amo a Eurovisão e estou, inclusivamente, num blogue sobre isso”. A resposta, quase sempre, envolve uma expressão facial confusa e, claro, a inevitável pergunta: “Mas por que razão é que tu gostas da Eurovisão?”

Porque é que eu não haveria de gostar, pergunto. Ora porque “é um circo e não é música”, ou porque “é tudo uma trafulhice política”, ou porque “já ninguém quer saber disso desde 1970”.


A Eurovisão é um circo sem valor musical?

Questiono-me várias vezes se este complexo de superioridade é uma coisa só nossa. Arrisco-me a dizer que sim – até porque o ‘circo’ da Noruega venceu a votação geral do público - e a culpar o Salvador Sobral por isso.


Eu amo o espetáculo, as roupas extravagantes, a overdose de pirotecnia. Sim, a Eurovisão é, muitas vezes um circo, que eu adoro de paixão. E se me pedirem para escolher entre uma ‘Like It’, a minha favorita desta edição, e uma ‘Amar Pelos Dois’, a minha resposta será óbvia, e o que vale é que estes anos todos a acompanhar o festival me deram resistências para aguentar ver as minhas favoritas no fundo da tabela.

Mas nada há para temer, críticos musicais autodidatas por esta internet fora. Duncan Laurence venceu (merecidamente) o festival ao piano, com uma canção simples e especial. Estamos todos em paz e harmonia.

Uma trafulhice política?

Seria estúpido dizer que não, quando temos uma troca de pontos constante entre Grécia e Chipre, entre Sérvia e Montenegro. Quanto temos uma Ucrânia a desistir de participar (e a perder a oportunidade de somar a sua terceira vitória no concurso) porque a representante que o país escolheu se recusa a deixar de ter carreira na Rússia. 


Mas importa relembrar que vivemos num país que é o único que tira a Espanha do fundo da tabela ano após ano. Vivemos num país que votou estrategicamente em 2017 não fossem os nossos pontos atrapalhar uma vitória de Portugal. 

Os portugueses deram 12 pontos a ‘La Venda’ na final . Na semifinal, ‘Telemóveis’ recebeu 12 pontos dos espanhóis. Se não queremos uma Eurovisão política, se calhar devíamos começar a apostar em fazer o nosso papel. 

Já ninguém quer saber da Eurovisão?

Recuando a finais de janeiro, Conan Osíris apareceu para os comuns mortais, ‘Telemóveis’ saiu cá para fora e virou assunto do dia, ao longo de vários dias. Meses? Portugal escolheu uma proposta que em tudo era arriscada, que era tão diferente que até causava desconforto. Que, em todos os aspetos, era incomparável com alguma das mais de mil canções que já passaram por um palco eurovisivo. 


A mal ou a bem, todos os portugueses quiseram saber da Eurovisão. Nem que seja para soltar um “15.º lugar, a ser representados por aquilo, grande surpresa”. No fundo, foi um 15.º lugar injusto, mas previsível, para uma canção que, pela primeira vez, me fez sentir que estava a representar  aquilo que a minha geração quer ouvir em Portugal e aquilo que é, realmente, o futuro da música portuguesa. Nós, os que queremos realmente saber da Eurovisão para além de uma piadinha fácil numa caixa de comentários no Facebook, estamos tristes, mas mais orgulhosos que nunca.


Porque é que eu ainda gosto da Eurovisão? Acho que não sei muito bem responder a essa pergunta, mas diria que é aquela fixação natural do ser humano por coisas que lhes fazem mal, mas sabem tão bem.

Imagens: eurovision.tv, wiwibloggs/Vídeos: eurovision.tv

[Crónica] ESC 2019: o ano em que a KAN estragou o meu comentário ao ESC

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OBS: caso sigam as notícias eurovisivas, vão perceber que alguns pontos deste texto não fazem muito sentido. No entanto, a minha opinião sobre esses pontos não mudou. O que mudou mesmo foram os pontos da tabela, fruto da incompetência da organização, para quem foi muito difícil perceber que a média entre 0+0+0+0+0 dificilmente vai ser 12. Desta forma, e tendo em conta que este texto foi preparado com antecedência, o mesmo vai permanecer ridículo, bem ao nível de toda esta situação.

Chegamos ao fim de mais um ano eurovisivo e nos nossos corações já se faz sentir a nostalgia ao saber que falta praticamente um ano para termos o nosso momento de volta. A boa notícia é que em Maio do próximo ano estaremos na Holanda, bem mais perto de casa e se tudo correr bem nem vamos ter que vender um rim para comprar bilhetes para o show!

Esta foi definitivamente uma edição invulgar para mim: não pude acompanhar como normalmente faço as semanas antes do festival propriamente dito e, no entanto, tinha tantas favoritas que dificilmente ficaria chateada com os resultados - quase aconteceu, é verdade, mas no final o concurso apresentou um top 5 que não poderia ter me deixado mais feliz. Mas esta questão de alguém que eu não apreciava ter quase vencido - e sim, estou a falar da Suécia - traz desde já uma questão que devia ser abordada pela EBU. Estou obviamente a falar desse painel de pessoas especializadas em música que sabe perfeitamente o que faz chamado júri. Talvez eles realmente achassem que a Suécia tinha a  melhor música a concurso, o que se torna duvidoso porque parece que todos os anos eles acham que a Suécia tem a melhor música a concurso, então eu nem vou reclamar da inutilidade do júri neste ponto. Reclamo sim dos votos à descarada nos vizinhos e nos últimos lugares atribuídos aos países com quem o país em específico tem problemas políticos. Será só o público que vê como isto é ridículo? Vai continuar a EBU a fechar os olhos a estas situações que obviamente tiram parte do prazer para quem esta a assistir e torna o concurso tão mais político? Obviamente para a EBU la venda no cayó no. Talvez o Miki lhes devesse ensinar algo.


Continuando no tema "politiquices", esta edição ficou marcada por dois momentos em que a bandeira proibida foi exibida. Primeiro Madonna arriscou-se a perder o seu cachet ao exibir a bandeira da Palestina, embora sejamos honestos, ela devia perder o cachet era por causa daquela atuação vergonhosa. Depois o grupo islandês, que tinha prometido protesto, cumpriu com a sua parte e foi recompensado com os lugares mais desconfortáveis no avião na volta para casa. Se era o momento para este tipo de manifestação acontecer? Não, não era. Se todos cá em casa aplaudimos a atitude? Oh se aplaudimos! Tomando lados políticos ou não, não nos podemos queixar da falta de aviso. Eles não estavam lá pelos pontos ou pelo top 10 que acabaram por conseguir. Eles estavam lá para isto e só lhes deram espaço de antena para que acontecesse. A atitude foi com certeza incorreta mas só me faz amar ainda mais este grupo.


E esta conversa leva-me a dar uma palavrinha sobre a organização. Nem tudo foi mau, obviamente, mas muito com coisa com certeza passou ao lado de ser bom. Nunca vi tantas mãos a serem gravadas numa emissão da Eurovisão. O facto de até um camara man ter aparecido durante uma atuaçao revela a falta de experiência da equipa. Não vou estender-me nos planos de câmara filmados da janela da vizinha que estragaram tantas atuações. Mas posso falar da falta de capacidade da organização de entregar às delegações o que elas pediam e as dores de cabeça que isso nos deu ao ver os nossos favoritos a serem prejudicados por causa destas coisas. No entanto vamos dar o crédito às coisas que realmente se superaram: os postcards foram os meus preferidos dos últimos anos e alguns deles volta e meia ainda vou rever; tenho obviamente que mencionar também os interval act que nos trouxeram de volta algumas das caras que nós mais adoramos e que sempre é um prazer voltar a ver no palco da Eurovisão. Quase até esquecemos que a Madonna subiu ao palco.


Termino a falar dos resultados. Holanda era uma das minhas preferidas então não podia estar mais feliz com o resultados. Portugal não passou para a final - injustamente, no meu ponto de vista - mas fomos mais uma vez vítimas desse jurí extremamente sapiente que vota nos países vizinhos só porque sim. Nada que nunca tenhamos visto. Por outro lado pude pela primeira vez ver um top 5 da Suíça, país que me viu nascer e me acolheu por uns quantos anos e pelo qual eu sofro como se fosse  Portugal. São Marino e Macedónia do Norte conseguiram os seus melhores resultados de sempre: o primeiro a revelar como os telespectadores ainda adoram uma boa piada e o segundo a mostrar como o júri consegue acertar em algumas coisas de vez em quando e a justificar o porquê de ainda existir. Alguns resultados foram mais justos do que outros, uns ficaram mais felizes que outros, mas não seria Eurovisão se assim não fosse. Para o ano há mais, mas por agora é hora de voltar às vidas normais que os bilhetes para ir à Eurovisão no próximo ano não vão aparecer cá em casa de graça.

[Crónica] ESC 2019: "Porque é que eu estava errada sobre Conan Osíris?"

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A Eurovisão 2019 foi, em praticamente tudo, uma Eurovisão justa: quem venceu o voto do júri mereceu vencer, quem venceu o televoto mereceu vencer e quem venceu a Eurovisão mereceu vencer. Sem rodeios, nem hesitações.


Portanto coloca-se a pergunta: Portugal mereceu ficar no terrível lugar em que ficou?

Eu fui, desde a revelação das canções do Festival da Canção, uma fã de “Telemóveis”. Não só por apreço imenso à originalidade inegável de Conan Osíris ou pelo entusiasmo de ver uma canção no Festival da Canção que não pode, em situação alguma, ser considerada “da década passada”, mas também, e principalmente, pela crença que Conan Osíris poderia fazer estragos na tabela eurovisiva. Os estragos feitos foram apenas na minha sanidade mental!


Porque é que eu estava errada sobre Conan Osíris? 

Sem notar, eu e muitos milhares de fãs eurovisivos caímos na mesma armadilha todos os anos: acreditar que o júri eurovisivo é um grupo de profissionais que, mais do que ninguém, valoriza risco e originalidade ao detrimento de composições genéricas e iterações de rádio. 

Era sabido que “Telemóveis” nunca seria do agrado do televoto. O televoto é a reflexão do que é mais “digerível”, o que é mais visualmente marcante e o que consegue encaixar-se em moldes que agradem a maioria. “Telemóveis” não poderia nunca caber em moldes existentes.

Os jurados da semifinal colocaram Portugal atrás de Montenegro. Portugal não esteve “quase a qualificar-se” … Portugal esteve “quase a ficar no fim da tabela de todos os países”. 

Não acho que o insucesso de Portugal deva ser atribuído às roupas, à produção, à RTP ou ao Conan e ao João. Apostámos num risco (que sabíamos que era um risco colossal) e não lucrámos. Foi uma aposta e apostas perdem-se. 

Não o digo como autodefesa, mas acredito mesmo que uma competição eurovisiva como a Eurovisão não estava preparada para “Telemóveis”. A audiência precisava de elementos comuns para se guiar na atuação e “comum” esteve sempre longe da prestação portuguesa.


Deveríamos ter enviado outro artista para Israel? 

Não. Um absoluto “não”. Conan Osíris foi um dos melhores representantes que Portugal já teve a honra de ter. Ele assumiu o papel por completo, integrou-se na família eurovisiva de cabeça, fez amigos, fez fãs, converteu muita gente. 

Nem por um momento deveríamos esquecer do orgulho de ser representados por “Telemóveis”: a canção que não é de agora, é do futuro.

Obrigado à delegação portuguesa pelo trabalho e, que para o ano, não voltemos ao que o Festival da Canção era antes de 2017.

Imagens: eurovision.tv

[Crónica] ESC 2019: Portugal falhou. Israel não ficou atrás. A favorita triunfou

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Não querendo ter de me sujeitar a apanhar as canas depois, vou, mesmo assim, arriscar: ainda bem que estamos a ir na direção de um país que vai assegurar uma realização digna da Eurovisão em 2020. E que engraçado estar a escreve-lo em tons de laranja, ainda por cima. 


Não vou querer alongar-me muito, mas vou dedicar alguns pontos àquilo que, inevitavelmente, esteve como os pontos essenciais de um ESC que teve de tudo menos uma realização consistente, ao contrário do que tínhamos sido habituados nos últimos tempos. Sim, Israel provou o oposto do que estávamos à espera. Apesar dos live shows terem decorrido sem problemas ou anotações de maior, o que vimos antes disso aproximou a organização do limiar do amadorismo. E, por isso, dedico as seguintes palavras. 

Sobre Israel:



Sediou em 1979. Sediou em 1999. Sediou em 2019. E eu ponho uma vela hoje para que não venha a acolher a competição em 2039.

Houve coisas boas em Israel, e não vou dar uma de ingrato, por isso esperem um pouco para as lerem. Mas foi tão mais fácil ficarmos irritados com as situações (caricatas) que íamos lendo sobre (tudo) o que corria mal na Expo Tel Aviv. No final, acho que vou esquecer esta Eurovisão muito mais depressa do que esqueci que a vitória do Azerbaijão em Düsseldorf. Ah, ainda tenho entalado essa manha de um júri dar, do nada, 12 pontos a uma música que ia acabar com um null points. Mas enfim, o prato que se serviu a seguir foi pela calada...


Sobre Portugal:



Sem dar spoilers e garantindo já uma publicidade ao artigo de amanhã, que se dedica inteiramente a Portugal, era inevitável eu não tocar no assunto. Porque também saí afetado. Porque também caí na armadilha, na ilusão, na esperança... enfim, numa realidade sobre a qual deveríamos ter tido, desde cedo, os pés bem assentes na terra. 

Portugal quis arriscar, e fez tão bem. É preciso abrir caminho a estes estilos que, de outra forma, poderiam passar tão ao lado, sem prestarmos qualquer tipo de atenção. Por mim falo, que, de certeza, não me iria cruzar com o nome de Conan Osíris se não fosse o Festival. E ele também não iria chegar a tantas outras bocas e palavras escritas se não fosse o Festival.

Mas mais que um risco tomado por Portugal, foi um risco tomado pela RTP, que ainda hoje me surpreende. Agradavelmente supreso na altura, claro. Mas que ainda hoje me faz questionar. Não querendo estar a incitar a outras coisas, foi-me interessante, desde logo, compreender como é que os ecos de uma 'primeira Europa' que ouvia "Telemóveis" num primeiro contacto teve esta influência tão grande, e que, sem dúvida, contribuiu para um resultado diferente naquele 2 de março. 

Salvador Sobral (2017) 12 pontos do júri na semifinal. 12 pontos do júri na final.

Cláudia Pascoal e Isaura (2018) 10 pontos do júri na semifinal. 10 pontos do júri na final.

Conan Osíris (2019) 7 pontos do júri na semifinal. 12 pontos do júri na final.

Enfim, esperávamos o 15.º lugar na semifinal? Eu não. Esperava antes uma qualificação? Sempre. Apesar de ter deixado o sonho dispersar quando se entendia que, afinal, podia ser mesmo difícil uma compreensão à primeira (vamos perceber que até aqui, entre nós, portugueses, aconteceu o mesmo). A Eurovisão é de primeiros contactos. Ou se marca à primeira vista, ou o lance é fora de jogo. A estratégia empurrou-nos para um cartão vermelho logo aos primeiros 15 minutos de jogo. Agora, vamos aprender com isso, aliás, já conseguimos chegar aos 90 + 2 minutos com um triunfo imbatível.


Destaques merecidos, ou as menções honrosas, decidam vocês:

Apesar de ainda estar com os ouvidos sensíveis de uma ou outra banda sonora mais irritante, a ideia dos postcards de 2019 foi criativa, original e muito bem conseguida, mesmo com metade da Europa a afirmar ser pés-de-chumbo. 

Com um irritante e outra tímida demais, deixem-me, numa breve nota, felicitar Erez Tal e Bar Refaeli pela sua mais correta e sóbria condução de alguns momentos do Festival. Tenho muitas saudades da Anke Engelke, mas a Alemanha gosta mais dos últimos lugares.

Se houve interval act de verdadeiro interesse ao longo deste ESC (Lisboa 2018 também não se pode gabar, né) foi com o momento proporcionado pelos Shalva Band. Obrigado, pela emoção!

Macedónia do Norte mudou de nome e mostrou que está na altura de a Europa ouvir e passar a chamar aquele país da forma correta!

A Suíça também dá um olá! e diz que veio para ficar (assim espero).

A Roménia endividou a sua emissora nacional para ficar atrás da Moldávia na semifinal 2, Moldávia essa que copiou a Ucrânia 2011, Ucrânia essa que tem... a Maruv.

Sobre Holanda 2020:



A minha canção favorita venceu. Para mim a melhor, para muitos outros a segunda melhor. Para um painel especialista, só no terceiro lugar. Tudo foi estranho nesta Eurovisão, mas, no final, triunfam os que merecem. E os resultados assim foram, espelhando um final merecido e verdadeiro. Desde 1980 que muita coisa mudou naquele país. E nós já estamos prontos para isso. 

Imagens: Eurovision.tv; Observador; Kyiv Post

[Crónica] ESC 2019: o 10.º lugar de São Marino, a azia portuguesa e o último jogo do Jonas

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Os que já leram comentários e coisas do género que escrevi sabem que tenho um problema grave com inícios e finais. Esclarecido isto, se calhar passamos ao que importa: o comentário extremamente relevante de alguém que nem sequer viu a Eurovisão em directo. Como pessoa que sabe definir as suas prioridades, optei por ir à Luz ver o meu clube sagrar-se campeão nacional e, quando cheguei a casa, comecei a ver o ESC. Foram 3 horas e meia de atraso mas, felizmente, consegui evitar os spoilers e, antes que comecem a dizer que sou péssima fã, ainda me dei ao trabalho de votar (obrigada aos que me avisaram no momento em que abriram as linhas).

Sabia que o meu favorito não tinha hipóteses e, por isso mesmo, vi esta edição com as expectativas muito baixas. O bom disto é que pude passar a piroseira dinamarquesa, os guinchos estónios e a cena (à falta de nome melhor) azeri à frente.


Então e a música vencedora? É boa e ele canta muito bem. O staging é que é mau. Mas há uma coisa em particular que faz com que não consiga ver "Arcade" como uma música vencedora: a falta de sentimento. O Duncan não me transmite absolutamente nada. E o problema podia ser meu e da minha insensibilidade mas já várias pessoas me disseram o mesmo. Felizmente, já lá vão os anos em que me importava com os vencedores ao invés de me focar no que realmente importa: o sucesso dos meus favoritos.


Podemos parar uns minutos para falar no melhor resultado de sempre da Macedónia? Confesso que foi por pouco que não chorei durante a votação do júri apesar de saber desde bem cedo que a Suécia ia acabar por ganhá-la. Tamara Todevska fez uma performance irrepreensível. É uma cantora de enorme qualidade e uma interprete ainda melhor. Foi mais que merecido.

Só gostava de saber porque é que ninguém me avisou que este ano era ano de o júri valorizar o melhor país eurovisivo da década (também conhecido por Itália). "Soldi" está longe de ser das minhas músicas italianas preferidas e até acho que o staging foi miseravelmente feito (a sério, deixem-se de traduções manhosas) mas poder ver um país que manda, ano após ano, música de qualidade no 2.º lugar é impagável. Agora podiam era ter feito esta brincadeira de dar pontos a Itália, sei lá, em 2015 ou em 2018. Tinha sido giro.

Claro que nem tudo são rosas e, por isso mesmo, o meu 2.º lugar (Roménia, portanto) ficou pela semifinal. Injusto? Claro. A música é boa, o staging também e a voz dela ainda melhor. Claro que me chocou bem mais a não passagem da Hungria. A música deste ano era inferior a "Origo" (muito até) e, durante 3 dias, condenei o júri por mais uma vez ter deixado Joci Papai num lugar imerecido. Sucede que desta vez foi o público.


Então e Portugal? Ui, isto é um tema sensível, não é? Se vos disser que fiquei bem mais chateada com a não passagem da Hungria do que com a de Portugal sou deportada, certo? Achei piada a todos os que disseram "Portugal não passou por causa de São Marino" ou "Portugal ficou em 11.º a 2 pontos de São Marino, isto é ridículo". Ora, foi quase isto. Só que São Marino ficou em 8.º e Portugal em 15.º. Nós ficámos atrás da Geórgia (e merecidamente!) que era apontada por todos como candidata ao último lugar. É injusto? Claro. Vamos enviar só baladas a partir de agora? Óbvio. É razão para tanta azia? Diria que não. Há coisas piores na vida? Sim, o Jonas fez o último jogo pelo Benfica ontem.


Por falar em São Marino, eu sou uma daquelas "pessoas cuja opinião sobre a Eurovisão, a música ou a generalidade dos assuntos deixou de ser válida". É assim que as pessoas apelidam todos os que votaram no Serhat, certo? Permitam-me que vos explique o meu voto: além de obviamente não ter amor ao dinheiro, o que fiz foi tratar a Eurovisão da mesma forma que ela se trata a si mesma. Durante anos e anos eu votei baseada em duas coisas: a música e a voz. Interessavam-me grandes instrumentais, boas vozes e boas actuações (não necessariamente com fogos de artifício e mil e um adereços). O que acontecia, na maioria das vezes, era os grandes instrumentais, as boas vozes e as boas actuações serem ignoradas. Dou-vos três exemplos:
  • 2011: votei na Grécia. Uma música que misturava rap e música tradicional com um excelente cantor e um staging simples mas maravilhoso. Acabou assassinada pelo júri;
  • 2015: votei na Itália. Não preciso de dizer nada sobre isto, pois não?
  • 2018: Itália, claro. Uma música com conteúdo, dois dos melhores artistas que já pisaram aquele palco e bam 17.º no júri.
Ora, eu não sou o tipo de pessoa que se chateia por ser gozada (se o fizesse já não tinha amigos) mas depois de anos e anos a ver a Itália ser roubada, a Suécia a ficar sempre no top 3 do júri, as músicas mais tradicionais (não esqueçamos que foi para isso que se criou a Eurovisão) receberem zero crédito e coisas como "Party For Everybody" ficarem muito acima do que mereciam (que era o último lugar) acho que me fartei. Como não consigo deixar de ver a Eurovisão, optei por me começar a rir com isto. É que, entre ficar chateada como fiquei muitas vezes, ou rir-me porque uma pessoa que nem conseguiu cantar no tom certo passou à final, prefiro a segunda opção. Felizmente não estou sozinha porque aquele top 10 do televoto não foi conseguido com os meus 74 cêntimos. Eu vejo o Serhat como o Taarabt da Eurovisão. Ou o Taarabt como o Serhat do Benfica. Ainda estou a decidir qual das hipóteses gosto mais.

Dito isto, permitam-me que vos fale da pior actuação da noite. Uma actuação que quis ser tudo mas que acabou por ser pouco mais que nada. Uma performance vocal absolutamente miserável (até o Serhat e o Victor Crone conseguiram ser menos maus) e algo pelo qual toda a gente esperava (menos eu, vá) e acabou por ser uma desilusão. Parabéns Madonna! Levas o Barbara Dex e o prémio de pior da noite. 

Antes de passar à minha preferida, podemos só falar da organização deste festival? Se calhar não podemos porque não é possível falar de coisas inexistentes. Falemos então dos votos do "júri" bielorrusso. Que palhaçada foi aquela? Se calhar, digo eu, para a próxima substituem-se os júris. Ou faz-se uma média bem feita. Ou, sei lá, olham para as edições passadas e pensam "estes gajos dão sempre 12 à Rússia, não é? Então vamos fazer isso para ninguém desconfiar que isto foi 100% manipulado".


Notaram como introduzi discretamente a Rússia no texto? Nunca na minha vida pensei vir a votar na Rússia. Nunca gostei das músicas deles e, desde o primeiro momento em que anunciaram o cantor, fiquei de pé atrás. A verdade é que assim que ouvi "Scream" apaixonei-me. É um instrumental forte e propositadamente dramático como eu gosto que se junta a uma voz que eu desconhecia existir porque "You are the only one" mostra absolutamente nada das qualidades vocais do Sergey. Fico feliz que ele tenha decidido regressar com uma música que mostrou a todos que ele é um artista brilhante. E fico ainda mais feliz que tenha conseguido um merecido top 3 apesar de ter sido praticamente assassinado na ordem de actuação ao actuar logo em 5.º (recordem-me lá: quando é que o Bjorkman deixar de decidir isto?). A minha música preferida pode não ganhar desde 2007 mas pelo menos todas se têm portado bastante bem (tirando aquele épico último lugar da Estónia em 2016 mas isso é outra conversa). 

Se hoje acordei feliz? Claro. São Marino ficou em 10.º no televoto, a Macedónia teve um top 10, a Rússia ficou em 3.º e sou campeã. Claro que, agora que pensei nisso, deixei de ter razões para viver porque falta um ano para a Eurovisão e meses para o Benfica voltar a jogar. Ainda por cima tenho de ir às compras porque não tenho nada para comer em casa. Mas, novamente, há coisas piores na vida. Imaginem rirem-se quando a Macedónia recebe poucos pontos do público, acharem que vão ganhar e depois perceberem que ficaram em 9.º lugar do televoto e 6.º na votação geral...

Imagens: BBC, Eurovision.tv/Vídeos: Eurovision.tv

[Crónica] As melhores letras do ESC 2019

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Há várias razões pelas quais eu continuo a seguir de perto a Eurovisão. Nenhuma delas justifica o sacrifício que é ouvir as 40 e tal músicas (mais as das finais nacionais) de que não gosto mas, nestas coisas, o coração fala sempre mais alto que a razão.

Uma das minhas razões preferidas é a análise das letras das músicas e suas estupidezes. Não sei se alguma vez fizeram o exercício de traduzir uma letra para português e ver o quão péssima esta é. Eu, que claramente tenho demasiado tempo livre, faço muito isso. Com a Eurovisão não é diferente e é por isso que vos trago as melhores letras deste ano. Preparem-se porque isto são coisas que dão que pensar.

"If you wanna see, just open your eyes.
If you wanna breathe, let's go outside in the open.
...
If you wanna voice, just open your mouth" (Lituânia)

Pessoalmente, a Lituânia é simultaneamente o meu ódio de estimação e o meu poema preferido. É um pouco como as pessoas na minha vida: digo mal delas mas no fundo divertem-me bastante. Só que neste caso não consigo ouvir a música. Sucede que há aqui grandes ensinamentos. Quem diria que, para ver, era preciso apenas abrir os olhos? Os cegos devem estar maravilhados com tamanha sabedoria. Se queremos falar é preciso abrir a boca? Mas então e o pessoal que faz ventriloquismo e nos ludibria com essa brincadeira? E a ideia de que temos de ir para a rua para podermos respirar? É capaz de ser um bocado enganadora. Eu respiro perfeitamente dentro de casa. Se estivesse em Auschwitz era outra história, mas assim consigo sobreviver no interior.

"I'm tired, tired of always losing" (Alemanha)

Assinado: todos os sportinguistas.

"I tried to stop your fire,
turns out that I couldn't" (Alemanha)

Enquanto pessoa com um pouco de experiência em incêndios, tenho alguns conselhos para as falsas irmãs alemãs: água é uma bom método para isto. Se o incêndio for demasiado grande, se calhar o melhor é deixar arder e logo se vê.

"You've got a problem" (Chipre)

Se é só um, perfeito. É para casar. Eu conheço pessoas com vários (eu, por exemplo).

"I dream of love,
you dream of love,
angels of God,
we all dream of love" (Croácia)

Alguma vez vos aconteceu estarem a falar com amigos sobre um sonho que tiveram a noite passada e eles dizerem "também já tive esse sonho"? É o que aconteceu com o Roko mas, tendo em conta que o compositor da letra foi o Jacques Houdek, é bem possível que as várias personalidades dele tenham tido realmente o mesmo sonho. 

"Quand je rêve, je suis un roi" (França)

O Jacques Houdek provavelmente quando sonha também é um rei. Vai-se a ver e o Bilal também sonha o mesmo que ele e que os anjos de Deus.


"I saw the end before it begun,
Still I carried, I carried, I carried on" (Holanda)

Daqui deduzem-se duas coisas: a pessoa é vidente e estúpida. Para efeitos de ocupação de espaço vamos esquecer o facto de estas duas palavras serem sinónimos. Ver o final de uma coisa (que, supostamente, acaba mal) e continuar a fazê-la é capaz de ser das decisões mais estúpidas que se podem tomar na vida. Não que eu não o faça, mas eu sou claramente estúpida.

"Whatever I've built, I'm gonna burn down" (Arménia)

Ter trabalho para nada... quem nunca?

"First you said you would die for me,
But in the end I was the one bleeding all alone.
How could I forget it all?" (Arménia)

Ora, se estavas a sangrar totalmente sozinha tens de facto bastante sorte em lembrares-te. Não há muitas pessoas que estejam a sangrar sem ninguém para as ajudar e que fiquem para contar a história. A menos que tenham só dado um golpezito no dedo a cortar um naco de chicha.

"I guess I forgot how to turn off my phone" (Bielorrússia)

Disseram todas as pessoas que estão em restaurantes a tirar fotos a comida.

"Nobody gonna like this, no
...
Yes, you're gonna like it" (Bielorrússia)

Vamos falar um pouco sobre coerência. Em três minutos a miúda começa a dizer-nos que NINGUÉM vai gostar do que quer que esteja que ela está a falar. No resto do tempo salienta 32 VEZES que a pessoa a quem ela dirige a música afinal vai gostar. Eu gosto de pessoas que se mantêm firmes na sua opinião, mas isso sou eu.

"Falling, I'm in heaven falling" (Montenegro)

Amigos, claro que estão a cair. Primeiro porque não são pássaros e não conseguem voar e depois porque estão no céu e portanto a única opção é mesmo cair.

"Hey you, it's me again" (Austrália)

Eu sempre que vou ver o Ricardo Araújo Pereira.

"When she go low, she go so low" (Suíça)

Na minha primeira aula de inglês, a minha professora ensinou-me o verbo ir. Aprendi que he, she e it eram pronomes seguidos de "goes" em vez do "go" dos restantes. Infelizmente, ninguém envolvido nesta música frequentou aulas de inglês.

"She’s only a friend of a friend of a friend of a friend.
...
She’s only a friend of a friend of a friend" (República Checa)

Lembram-se de falarmos de coerência? É algo que não vemos muito na Eurovisão e esta é mais uma prova disso mesmo. Primeiro ela é amiga de um amigo de um amigo de um amigo. Passados uns segundos já é apenas amiga de um amigo de um amigo. 

"Don't get too political" (Dinamarca)

Vamos, enquanto eurofãs, pensar no quanto isto se adapta à Eurovisão...

"Te pierdes porque hay camino" (Espanha)

Eu, geralmente, perco-me por não haver caminho (na estrada e na vida em geral)

"There is something you should know
I can't sing a love song anymore" (Finlândia)

O verso funcionava também se acabasse em "sing".

"I feel the sun upon my skin
And I am someone, I am someone" (Israel)

No inverno deve ser complicado não ser ninguém...

"Hey, how you've been?" (Suécia)

Toda e qualquer pessoa que aceita cantar uma música que começa com um "olá, como estás?" ou semelhantes devia falecer dolorosamente. Os homens primitivos não inventaram a fala para que ela fosse usada desta forma.

E, para terminar em beleza, deixo-vos um poema motivador para enfrentarem todo e qualquer problema que possa surgir na vossa vida:

Pareces triste e sozinho
Há algo de errado esta noite?
Porquê esta pressa para fugir?
As coisas vão ficar bem.
Apenas sê forte e olha para mim
Ouve-me quando digo
Quem quer saber se estás sem amor?
Acontece todos os dias.

Todos os teus sonhos desapareceram
Não importa o que faças
Ama todas as cores desta vida
E sê verdadeiro para ti mesmo.
Não te esqueças do meu número
Telefona-me sempre que quiseres
Vou sempre dizer-te que a vida é linda e boa.

Diz na na na
Num caminho escuro e deserto, diz na na na
Há uma luz que por ti espera, é na na na
Diz na na na, diz na na na
Não estás sozinho por isso levanta-te na na na
Sê um herói, sê o arco-íris e canta na na na
Diz na na na

Se te sentes sozinho
Podemos ir devagar
Acho que estou a ficar maluco
Sim, estou a ficar maluco
Podemos todos ficar malucos.

[Crónica] Conseguirá Conan Osíris chegar à final da Eurovisão?

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No passado dia 2 de março, quando Conan Osíris levantou o troféu da vitória, o favoritismo era real. A Europa estava entusiasmada com a esquisitice e o talento do nosso representante e parecia que a passagem à final do Festival Eurovisão da Canção (ESC) 2019 estava mais do que garantida. Mas com o tempo, o cenário tornou-se menos claro e as dúvidas instalaram-se... será que Conan Osíris irá chegar à final da Eurovisão?

Antes de expressar qualquer tipo de comentário, que fique bem claro: eu adoro "Telemóveis"! Mas tal não implica a obrigatoriedade de considerar a passagem de Portugal à Grande Final do ESC 2019 como garantida. Por um lado, temos a minha opinião pessoal acerca da canção e por outro temos o futuro de "Telemóveis" na Eurovisão. 


Após a vitória de Conan Osíris no mítico Festival da Canção (FC), Portugal chegou a estar em 7.º lugar nas preferências dos apostadores a vencer o certame europeu. Desde então, "Telemóveis" aguentou-se no grupo dos favoritos a qualificar-se na 1.ª semifinal. No entanto, durante a semana passada, Portugal desceu ao 11.º lugar nas casas de apostas, o que implica a saída de Portugal dos apurados para a final, de acordo com os apostadores... o horror, a tragédia... ou então demasiado drama. O que terá acontecido para parte do favoritismo se ter dissipado?

Promoção nula

É comum haver uma grande promoção das canções a concurso durante os meses que antecedem a Eurovisão. Muitas delegações empenham-se na criação de um videoclip que poderá ser um teaser daquilo que se verá em maio. Outros artistas atuam em eventos eurovisivos, como o Eurovision in Concert ou o London Eurovision Party, que é seguido por milhares de eurofãs e que serve muitas vezes para perceber o impacto que as canções participantes poderão ter no palco da Eurovisão. Ora, com  Portugal, nem vídeo nem atuação! "Telemóveis", assim como a maioria das nossas canções representantes, são arrumadas nos armários da RTP no momento em que vencem o FC e só voltam a ser ouvidas em maio. Com isto, é normal que as canções que são promovidas ganhem uma maior aceitação e que ultrapassem o favoritismo daquelas que permanecem arrumadas.


O facto de não haver promoção de "Telemóveis" durante a fase pré-eurovisiva não significa necessariamente algo negativo: o fator surpresa em maio poderá ser bem mais impactante! Isto se houver fator surpresa. Veja-se o exemplo de "Fuego", que teve uma promoção nula durante março e abril de 2018 e que depois se tornou numa candidata à vitória, não se tendo destacado nas casas de apostas até ao início dos ensaios.

Runnig Order difícil

A queda de Portugal nas casas de apostas deu-se principalmente após o anúncio da running order da 1.ª semifinal. À primeira vista, parece que Conan Osíris saiu beneficiado, atuando na 15.ª posição, quase no final do desfile das canções, o que irá ajudar "Telemóveis" a permanecer na cabeça dos telespetadores. O problema é mesmo a quantidade de canções consideradas favoritas a atuar na 2.ª parte da 1.ª semifinal. Bélgica, Austrália, Islândia e Grécia são alguns dos favoritos que irão atuar próximos de Portugal. Como se não bastasse, o Conan irá atuar entre a Estónia, uma canção pop genérica mas bastante acessível, e a Grécia, um pop contemporâneo com uma componente visual forte e considerada a favorita a vencer a 1.ª semifinal. Antes da Estónia, vem a palco a Islândia com uma outra canção muito distinta e que foge à banalidade. Ora, das duas uma: ou a Europa acorda virada para canções alternativas e experimentais e Estónia cai no esquecimento, ou acontece precisamente o contrário e passa a canção mais radiofónica.

O painel de jurados europeu pode torcer o nariz

"Telemóveis" é uma canção experimental e inovadora e portanto tentar prever o comportamento dos jurados europeus face à nossa canção é praticamente impossível. Há canções alternativas que caem na graça dos experts e outras que são jogadas para o fundo da tabela.

"Telemóveis" é polarizadora

Disto já nós sabíamos. A canção do Conan ou é amada ou é odiada, sem meio termo. É uma novidade tanto no FC como no ESC e, como tal, a canção por si só já é um risco. É um daqueles casos de tudo ou nada, onde ou se vai à final e se arrecada outro top 10 ou se fica pela semifinal. 


A RTP, em conjunto com Conan Osíris, têm perante si uma árdua tarefa: encontrar um conceito que possa ser apresentado em palco e que se encaixe em "Telemóveis" e na visão artística do cantor. Portugal nunca se destacou pela qualidade das suas apresentações. Com "Amar Pelos Dois", a simplicidade era a chave do sucesso e, como tal, a RTP não teve de arquitetar uma grande ideia para fazer brilhar a canção. Este ano, a história é outra... espero que exista mesmo o tal fator surpresa em maio e que Portugal brilhe, porque  tanto "Telemóveis" como o Conan merecem o sucesso e o reconhecimento de terem mostrado à Europa que Portugal também pode trazer inovação à mesa.

Imagens: Sul Informação; Record/Vídeos: Festival da Canção

[Crónica] Bitch she is Madonna... in Eurovision

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Já imaginaram o encerrar do desfile de canções na Grande Final da Eurovisão 2019 com "When you call my name it´s like a little prayer"? Era tudo o que a igreja católica desejava, principalmente se para o palco vierem crucifixos a arder. Drama, polémica e música são apenas alguns ingredientes que a Rainha da Pop poderia trazer ao concurso que também vive de drama, polémica e... de música de vez em quando. Preparem o tapete vermelho e a coroa de diamantes, porque Madonna poderá estar a chegar a Israel.

Ninguém acreditava que a Material Girl pisaria alguma vez o palco da Eurovisão. Mas o que é certo, é que tal poderá deixar de ser um sonho (ou um pesadelo para os haters) e tornar-se numa realidade. Milhares de notícias em todo o mundo especulam acerca da possível atuação de Madge na Grande Final da Eurovisão 2019 e isso seria tudo o que precisávamos para ser felizes sem sabermos. E porquê? Então porque...

Ela é "Erotica"

Quem não gosta de ver no palco da Eurovisão uma mulher que afirma sem medos a sua sensualidade e a sua sexualidade, derrubando qualquer machista que ainda esteja vivo? Madonna faz isto há dezenas de anos, não tendo medo de partilhar as suas fantasias com o mundo e muito menos de as mostrar em palco! Eleni foureira, Ani Lorak e MARUV (crying in ukrainian) são apenas alguns exemplos do amor que os eurofãs depositam em bombas de sensualidade. Bem, Madonna começou por cantar "Like a Virgin", mas não tardou muito para começar a gritar "Deeper and Deeper", porque tudo não passa de "Human Nature".


Ela é um "Hard Candy"

Eurovisão e Madonna não podem ser dissociados, pois ambos vivem de polémica. Todos nós adoramos aquele drama agressivo, com direito a vários episódios e capítulos certo? A polémica faz parte da carreira da Madonna, ora através das canções, ora através das suas atuações, ora com outros artistas. Elton Jonh, Cher e Lady Gaga são apenas algumas das rivalidades que marcaram a vida da cantora. Todos sabemos que a Rainha da Pop não veio para a indústria da música para contar "Bedtime Stories" aos seus colegas de trabalho...


Ela é um "Ray of Light"

Tanta luz que se vê sair do palco da Eurovisão que por vezes até cega! A Eurovisão também vive de cor e fogo de artifício. Madonna, por sua vez, é a rainha das atuações, proporcionando um espetáculo memorável, colorido e bem marcante! Quem não se lembra da histórica apresentação de "Hung Up" nos EMA´s 2005, realizados em Lisboa? 


Ela é "Celebration"

A Eurovisão é uma celebração da nossa cultura europeia, onde vários países se apresentam orgulhosamente no maior palco de música do mundo. Madonna tem milhares de motivos para celebrar, começando na sua carreira e terminando na sua conta bancária... "Bitch I´m Madonna".


Ela é uma "Masterpiece"

Eurovisão também pode ser sinónimo de qualidade e de apresentação de canções conceituais, com mensagem nas entrelinhas. Quantas vezes já "ouvimos" arte na Eurovisão? Agora imaginem "Frozen" ou "The Power of Goodbye" no palco do concurso... seria "Amazing"!


Ela tem uma canção chamada "Spanish Lessons"

... e isso poderia tirar Espanha do fundo do poço.


Esperemos que os membros da UER leiam esta crónica e que apontem estes parâmetros super válidos o coerentes para trazer Madonna ao palco da Eurovisão. Talvez tudo não passe de uma grande especulação, mas o que é certo é que o tão aguardado sucessor de "Rebel Heart" está para ser lançado e, como se não bastasse, com influências da nossa música portuguesa. Seria genial utilizar o certame como meio de promoção do seu próximo passo na carreira...

Então, mas esperam lá! Há um motivo que impede Madonna de participar na Eurovisão...

A canção dela tem "4 Minutes"

... e só pode ter 3!

Imagens: Papelpop; Madonna Online; CinePOP; About Music - WordPress.com; Wikipédia; Madonna Madworld

[Especial] A Eurovisão está demasiado óbvia e estamos a ficar fartos disso

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Vou ser simples: para um mero espetador da competição, pode ser pouco percetível, mas para os seus seguidores e fãs, a ideia parece ganhar alguma consistência, e sim, falo por vocês também. O Festival da Eurovisão está a perder o seu factor surpresa. Não há momentos inesperados, e a novidade aparenta-se desgastada. Desde 2013, com a produção do concurso a definir ordens de atuação, que qualquer olhar mais atento desvenda grande parte dos resultados das diferentes noites de competição. Porque sim, a running order também influencia. E sim, já começa a perder piada algumas decisões serem tão previsíveis...

A maioria diz que não importa. Quando um país leva uma boa canção ao ESC, pode estar descansado que não será a posição de atuação a influenciar em alguma coisa um resultado final. A ideia é, cada vez mais, consumada. A running order da Eurovisão só importa para a variedade e intensidade do espetáculo. Então, lanço a primeira questão. Se tudo acima é o assumido, porquê tanta especulação e preocupação em relação ao lugar que um país "recebe na rifa", depois de conhecida a ordem? Porquê sentenças de morte ao país X e Y depois de conhecido todo o alinhamento?

Com isto, não tenciono vir para aqui fazer futurologia, nem levar a que este espaço que me foi reservado seja para lançar as minhas apostas sobre "o que traduzir da ordem de atuações da Eurovisão 2019". Não venho para aqui dizer que o Montenegro ou a Moldávia não passam à final por causa da sua posição do alinhamento, ou para sustentar que a Suécia (e a Austrália, vá...) estão novamente beneficiadas. Mas podia. Sem dificuldades. E porquê? Porque não foi uma, nem duas, nem três vezes que se tornou óbvia a influência que as reações às canções pré-Festival têm no poder importante desta decisão, feita e apresentada pelos produtores da Eurovisão!

Esta pequena análise serve apenas para partilhar a ideia que tenho vindo a sentir nos últimos tempos. E para tentar fazer com que pensem a minha linha de raciocínio que já perdura há outros tantos... Porque, verdade seja dita, não está a Eurovisão demasiado óbvia? É que, a sério! A forma como os países foram distribuídos nas duas semifinais de 2019 só evidenciam o que já há muito se sabe: as piores músicas ficam sempre nas piores posições. Mas quem define as piores? Nós.

Christer Björkman, produtor do ESC em 2017, num dos processos de escolha do alinhamento do espetáculo

Apenas para exemplificar, vejamos. Quantos de vocês têm o Montenegro no vosso TOP 10? Vejo dois ou três braços no ar. Nas apostas, o país está bem no fundo. Olhamos o alinhamento? Atua na segunda posição, aquela que muitos dizem ser "o lugar da morte", com nenhum país a conseguir vencer depois de atuar naquela posição (e depois a ordem não interessa, que ideia). Quantos gostam da Geórgia? Encravada entre a Bélgica e a Austrália... Moldávia? Completamente esquecida com o que virá a seguir. Albânia? Mais outra encravada entre dois temas fortes na semifinal 2. E a Irlanda? Pois, já entraram no raciocínio. No final, o que têm todos estes países em comum? Basta olhar para a opinião que encontramos na praça pública, nos TOP's do YouTube ou nas apostas - estão lado a lado nos últimos lugares.

Estaremos nós a ser os principais culpados, a condenar atempadamente os países 'mais fracos' às posições mais difíceis, ou a ser alocados entre os países com melhores canções? Não. Aliás, há sequer culpados nesta questão? Não é isto mesmo a melhor tentativa da produção eurovisiva em criar um melhor espetáculo, com dinâmica de géneros e ritmos no seu expoente máximo? Se sim, então, porque não experimentar inverter, dar um empurrãozinho àqueles países que até aqui tiveram mais dificuldades em se evidenciar! Já perceberam a minha ideia do 'demasiado óbvio'?

Apenas a parte em que cada país é posicionado no alinhamento (1st ou 2nd half) é ainda definida por sorteio

Concluindo, está a Eurovisão, ao fim ao cabo, óbvia? Demasiado. Chega quase ao cúmulo de alguns países levarem com os louros e benefícios ano após ano, ao contrário de outros, que precisam de levar algo muito bom e de gerar impacto junto do público para conseguir arrecadar um posição mais favorável. Porque, como referi, a posição não é fulcral, mas pesa. E está tão pesado, que faz com que se torne descarada toda esta tendência. Para o espetáculo, claro!

Nada mais a fazer ou a acrescentar perante a questão. Segundo especialistas e produtores, o Festival será capaz de dar todas as emoções de um verdadeiro espetáculo musical, desde momentos calmos até àqueles que atingem o clímax. Só acho que a lengalenga já está tão decorada por nós, que qualquer um de vós que lê este artigo seria capaz de adivinhar a ordem de atuação vários dias antes da sua publicação. E quando isto acontece, uma das essências principais apaga-se. Como já aconteceu...

'E que piada há nesta tendência do previsível? Sinceramente, já muito pouca. Mas isto sou eu!


Imagens: Eurovision.tv

[Crónica] "Odeio o Festival da Canção"

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Há exatamente um ano escrevi o rascunho de uma crónica intitulada “Odeio o Festival da Canção”. 

Eu, que sou alimentada durante nove meses do ano por miolo de Eurovisão e côdea de Festival da Canção. Eu, que tive dificuldades em ser um ser humano produtivo durante todos os meses de maio da última década. Eu, que escrevo para um blog sobre o Festival da Canção e a Eurovisão. Eu atingi, em 2018, um nível perigoso de frustração.

Deixo-vos a crónica que nunca foi publicada: 

Odeio o Festival da Canção 

Antes de injetarem ódio e frases pré-pensadas dirigidas a todos os pobres honestos que se encontrarem na vossa oposição, ouçam o que tenho para dizer. Ouvir é uma arte desvalorizada neste mundo em que nos é mais fácil atacar opiniões não lidas do que ler opiniões que não sejam as nossas.   

Ouçam-me. 

Já faz muito tempo que o meu favorito não ganha o Festival da Canção e em 2018, mais uma vez, ganhou a minha aposta favorita. Portanto, hesitem antes me chamar apenas mais uma “azeda que não gosta de perder”.

Acho que Portugal vai ser representado por uma canção maravilhosa, a qual me irei orgulhar imenso de ver a defender as cores do meu país. O orgulho será do tamanho colossal da felicidade que será dizer “Sim, 'O Jardim' é o meu representante” (mesmo que acabe com zero pontos na tabela).

Mas não se enganem, meus amigos. As boas canções que estão a sair do Festival da Canção, tanto o ano passado como a deste ano, não são resultado de uma emissora que quer se tornar uma superpotência no maior festival de música do mundo. Não. 


O objetivo da RTP estes últimos dois anos foi um objetivo nobre a que dou um tremendo valor: apoiar os músicos portugueses. Precisamos que alguém se chegue à frente e dê ao público português a opção de escolher música nacional em vez de a única opção ser ouvir os Despacitos e Justin Bieber vinte e quatro horas por dia na rádio.

Sabem qual é a forma errada de enaltecer estes artistas que irão, pela primeira vez, introduzir-se a uma grande parte público português? 


Colocá-los na Cornocópia dos Hunger Games e dizer “Vão! Sejam adorados pelo povo português!”. Não é irónico que o conceito dos Hunger Games seja mesmo torcer por um e esperar que o resto morra? Parece dramático, mas acaba por ser a analogia perfeita.

De que vale convidarem um artista português que não está nos tops comerciais do país, para promover o seu trabalho, para depois receber zero pontos de quem deveria estar a ser introduzido a esse mesmo trabalho. 

Mesmo que o Festival da Canção se traduza em sucesso na Eurovisão, será sempre em detrimento destes artistas que não estavam à procura de competir.



O objetivo atual do Festival da Canção é, em tudo, falacioso e mal pensado.

Cale-se a imprensa, sedenta de cliques rápidos e indignações comentadas, que procura desesperada “Quem é o próximo a ser acusado de plágio?”. Peitos erguidos de alguém que julga estar a apoiar a música portuguesa quando dá um microfone a intrigas irrelevantes entre pessoas irrelevantes e depois se esquecerá de anunciar os lançamentos dos novos álbuns dos artistas envolvidos neste festival. 

Calem-se os dinossauros que, ano após ano, moldam os resultados do Festival da Canção de forma a caber nos seus moldes do que uma “verdadeira representação portuguesa” deveria ser, sabotando qualquer música que fosse estranhada num festival pré-1999 e incentivando os compositores a nunca escreverem em inglês porque o mais importante é esta cega necessidade de nos mostrarmos patriotas. Que o nosso vencedor vá comer pastéis de nata para o palco da mesma forma que o Ronaldo vai comer pastéis de nata para o campeonato europeu! Ah esperem, o importante do campeonato europeu é ganhar. Situações diferentes, hum? 

Calem-se os diplomas inúteis em Teoria da Música que insistem em me ensinar o que “verdadeira música” deveria ser porque “música é sentimento” e amaldiçoados sejam aqueles que querem ouvir música para dançar, para levantar o espírito, em vez de música sobre a saudade e melancolia de um povo que nos meus 20 anos nunca conheci.  Amaldiçoados sejam aqueles que não louvem o grande salvador da Eurovisão, que salvou este evento de gostos malformados e fogo-de-artificio para a gentalha e salvou-nos da ignorância que é gostar de música que não me faz querer saltar do 3º andar, da ignorância que é gostar de música pop.

A Eurovisão é muito mais do que música, aí é que está o segredo que os Salvadores Sobrais não percebem. A Eurovisão é muito mais do que música.



A Eurovisão é um evento tecnológico que mostra que a Europa consegue oferecer experiências visuais ao nível da Super Bowl dos americanos ou dos grandes concertos KPOP da coreia do sul. É uma celebração de designers gráficos que conseguem tornar uma performance transcendente. É uma celebração dos técnicos de luzes que conseguem desprender queixos das caras e tornar música numa experiência sensorial amplificada. É uma celebração de histórias diferentes. É a celebração de dramatismo, de tolerância e é esta piada privada que só percebemos nós, aqueles que partilham a mesma paixão pela Eurovisão. 


A Eurovisão é comunidade: este evento caricato que se torna a motivação comum de pessoas tão diferentes, vindas de todos os cantos da Terra, de comunicarem. Somos pessoas que vivem em ambientes políticos diferentes, desde dos países subtilmente homofóbicos aos países em que prostituição é uma profissão comum e taxada pelo governo, e, de repente, temos esta área neutra em que interagimos como iguais, como apaixonados pelo este mesmo evento, que nos continua a trazer riqueza para a vida. 

A Eurovisão em nada se assemelha a outras competições internacionais. Quando é que foi a última vez que disseram “só espero que a Itália ganhe o Europeu” antes de dizerem “só espero que Portugal ganhe o Europeu”? Só a Eurovisão consegue equilibrar o patriotismo com o apoio a outro país, que claramente merece vencer mais do que o próprio interesse pessoal. 



Encontrei esta crónica, escondida entre pastas inúteis e atalhos de aplicação que já não levam a diretoria nenhuma. Lembro-me da razão que me levou a não partilhar este monólogo de amargura: faz parte de mim a decisão de nunca contribuir para a crítica sem solução. Escrever mil palavras sobre o que não me apraz será sempre mais fácil e todo o mortal comum tem a capacidade de o fazer (e é o fundamento do modelo de negócio do Facebook). 




Há um ano atrás, eu não tinha valor a acrescentar à echo chamber de gritos anónimos sobre tudo o que está errado com o Festival da Canção. Todos os “as canções são todas iguais” e os “a canção vencedora é uma porcaria” chegavam para criar uma bolha de descrédito do festival de música que escolheu, no ano anterior, a canção vencedora da Eurovisão. 

Não me interpretem mal, eu não julgo a pessoa que escreveu a crónica “Odeio o Festival da Canção”. Ela tinha razão, mesmo que ninguém o soubesse. Ela estava enfuriada por o Festival da Canção, esse evento que lhe era tanto, ser, mais uma vez, pintado a preto e branco. Ela derramou (com hostilidade) a desconsolação que sentia, mesmo ganhando a canção que ela achava que a representaria melhor, do Festival da Canção não refletir qualquer interesse em ser maior que si, maior que Portugal. 

Apercebi-me, ao ler as palavras que foram minhas, de uma ‘eu’ mais nova e exasperada, que eu estava errada: eu nunca odiei o Festival da Canção. 



O Festival da Canção de 2019 não é perfeito e não é para todos. Já era tempo deste festival deixar de ser a festa anual da celebração de Simone de Oliveira e começar a ser a verdadeira celebração do que se faz em Portugal. 

Eu serei sempre a primeira a criticar a RTP, a líder de um naufrágio sempre prestes a acontecer, por não ser uma boa voz para um povo que já não vive em 1960. No entanto, este ano, não lerão injúrias vindas destas mãos já combalidas de guerras virtuais. Este ano, não há amargura.

Os artistas convidados pela RTP para o Festival da Canção 2019 são, finalmente, o reflexo da minha geração. O reflexo de uma geração que não quer mais ouvir falar de “veleiros” e “saudade”, que não quer ser sufocada com guitarras portuguesas ou poemas de Ary dos Santos. Eu sou da Geração Z. Não vi o meu namorado ir para a guerra. Não acredito que tenha um “grande amor da minha vida”. Perco mais tempo a combater a minha própria cabeça do que a pensar em desamores arrebatadores. 

Pela primeira vez, vemos artistas que sobem ao palco do Festival da Canção sem acarretar uma ideia pré-concebida do que tem de ser música para o Festival da Canção. Sempre foi essa a problemática principal e eu culpo as “canções do fim” que vêm contaminar uma oportunidade de mostrar à Europa que Portugal é um país que tem muito para oferecer fora do mercado de “violinos tristes e simplicidade visual”.


“E esta guerra toda
Afinal é por quem?
De que lado é que estou
Se sou eu que não estou bem?”

Durante três minutos fui consumida com o pensamento: “só espero que a Europa esteja a ver”. Podia chorar de orgulho, mas nunca fui de exteriorizar emoção (os terapeutas que atendam à minha incapacidade de expressão). 
A melhor música que se faz em Portugal faz-se fora dos moldes de gerações anteriores. Que arrumem os moldes na gaveta! Eu e os meus somos mais complexos do que fados felizes, do que progressões de acordes esteticamente agradáveis, do que visões claras de movimentos certeiros. Eu e os meus somos “Pugna”. Somos o novo sangue que não corre com medo de tingir tecidos. 


“Onde
Me levas ó inércia
Tão longe
Ficou a inocência
Tão mal, tão bem que sabes
Sabe alguém o que cabe mais em mim?”

Eu e os meus somos a estranheza. Não viemos para agradar quem não nos agrada. Não cabemos em caixa pré-fabricadas por mentes pequenas. Não somos progressão musical previsível e nunca seremos menos do que fomos. Somos o mal sem remorso e o bem sem reconhecimento. Eu e os meus somos “Inércia”. Somos o novo sangue que não corre com medo de tingir tecidos.


“Eu vou partir o telemóvel
O teu e o meu
E eu vou estragar o telemóvel
Eu quero viver e escangalhar o telemóvel”

Eu e os meus somos irreverência. Não sobrescrevemos ao português clássico se o português clássico limitar a expressão artística. Que se danem os poetas entendidos em classes lexicais complexas. Eu e os meus vemos a onda sensacionalista como uma maré que dá o melhor à praia. Digam-nos que não temos conteúdo. Digam-nos que soamos à falta de respeito que pinta a nossa geração. Digam-nos que não merecemos valor, quando valor não pedimos em troca. Eu e os meus somos “Telemóveis”. Somos o novo sangue que não corre com medo de tingir tecidos.


Interessa pouco o que aconteceu na final do Festival da Canção. O Festival da Canção já foi tudo o que que não conseguiu ser nos últimos dezanove anos. 

Obrigada, RTP. 

Imagem: RTP
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